maio 03, 2012

DEALBAR

Verbo Dealbar: v.t. (do latim dealbãne "branquear")
1-tornar branco
2-em sentido figurado:purificar

Abril é o mês da Primavera e também mês do advento, o prenúncio da vinda, o dealbar da esperança.
A Primavera dá-nos esperança, ao vermos o florescer da natureza, e damos boas vindas a tempos mais auspiciosos.
Nestes tempos brancos bendizemos glórias, escutamos cânticos de louvor e enfrentamos um grande compromisso de honra, de purificação perante a vida. Deixamos para trás o tempo invernoso, as nuvens negras que pairavam em cima de nós e deixamo-nos guiar em passos pequenos mas certos, em direção a mais uma estação pascal. Isso mesmo, Abril, mês de Páscoa, que se quer uma etapa íntima, privada e secreta, mais do que uma época do ano em que há mais consumo, festa e férias.
Uma época que nos instigue a vestir o branco em sinal de pureza, reafirmando com segurança férrea a nossa fé, dealbamo-nos perante o negro do passado, as cinzas do presente e sem preocu~pações dignas de nota, sentamo-nos e olhamos de frente para uma nova aurora. 
É hora! É hora de dealbar os nossos crimes, branquear sacrifícios e brilhar...

Cátia (mãe de Daniel Rubim- sala de 1 ano)

DEALBAR

A palavra dealbar remete-me inevitavelmente para o último ano de faculdade.
Nessa altura, eu fazia parte do Núcleo de Divulgação Científica (NDC), uma associação de alunos de Engenharia Química da FEUP que tinha como principal objectivo divulgar o que de melhor se fazia em termos científicos na instituição fazendo chegar a ciência a grupos que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a ela.
Já não me recordo exactamente como, foi proposto ao NDC organizar as 2as Jornadas de Engenharia Química em parceria com o Colégio de Engenharia Química da Ordem dos Engenheiros subordinadas ao tema: “O engenheiro Químico no dealbar do novo século”. Acho que foi esta a primeira vez que tive contacto com a palavra dealbar.
Coube-me a árdua tarefa de dissertar sobre o tema na presença de tão ilustres convidados como o Eng. Belmiro de Azevedo, Eng. Ferreira de Oliveira, Eng. Ramôa Ribeiro, entre outros menos conhecidos mas não menos prestigiados.
Lembro-me que a minha intervenção foi curta mas marcante. Reflecti sobre os desafios que o novo século nos reservava enquanto recém-licenciados. Os receios eram alguns pois o mercado de trabalho apresentava-se difícil e receoso. Hoje, à distância de quase 10 anos, vejo que os desafios que enfrentávamos eram bem fáceis comparados com os que os recém-licenciados (ou recém-mestres) de hoje, enfrentam independentemente da formação que possuam.
Do grupo de amigos que ficou depois do curso, todos nós estamos bem. Uns melhor do que outros mas todos nos conseguimos encaixar no mercado de trabalho, ter empregos não-precários e com salários razoáveis.
Os licenciados que hoje dealbam, certamente, terão um caminho mais sinuoso e díficil de percorrer do que nós tivemos. É evidente que há sempre excepções mas o futuro apresenta-se hoje, muito mais sombrio do que há uma década atrás. E o grave, é que para nós também se apresentou mais díficil do que na década anterior.
Resta-nos esperar que os ciclos típicos das economias de mercado se cumpram e que a crise chegue ao fim permitindo o dealbar de uma nova era de prosperidade e qualidade de vida.

Carla Durão
(Mãe de Mafalda Alvarim – 4 anos)

DEALBAR

Dealbar
Ao longo da vida, todos nós encontramos no nosso percurso académico, profissional ou mesmo nos tempos livres, os denominados “cromos”. Não aqueles que vão aos ídolos para serem cravejados pela metralhadora de insultos chamada Manuel Moura dos Santos, mas sim estes espécimes únicos no mundo, que julgam saber tudo, quando é notório que não sabem nada e que, pelo seu comportamento altivo e de uma aparente superioridade, nos provocam uma grande impressão. Ao pé de um destes artistas, sinto uma vontade enorme de recorrer à violencia, mas como não sou apologista, apenas me vem o desejo de que o seu nariz venha bater no meu punho fechado, com muita força...
Tive por exemplo um colega que gostava de mostrar que era inteligente. Uma mania que até poderia ser banal, não fosse o facto desse indivíduo recorrer sistematicamente a uma estratégia que passava por ir à biblioteca  requisitar livros, tais como o “manifesto  do partido comunista”, de Engels e Marx ou então “A Náusea”, de Jean Paul Sartre, somente para decorar algumas passagens mais rebuscadas e assim introduzi-las em qualquer contexto de uma conversa.  Se por acaso eu falo no tempo, lá vai ele referir que a existência é gratuita e ilógica e essa constatação por cada um de nós é algo terrível e fora de aceitabilidade. Se eu toco nalgum assunto referente à política, ele desata logo a descrever que isto é fruto da  burguesia ter rasgado o véu de emoção e da sentimentalidade das relações familiares e reduziu-as a mera relação monetária... Quando ele discursa e consegue encaixar os termos decorados, imagina-se o maior, o Mourinho do Conhecimento, o “el Comandante” das teorias revolucionárias e filosóficas. A realidade é porém outra: a assistência primeira fica de sobrolho franzido, como se estivesse perante um alien vindo de um planeta distante. Depois ainda aguenta uns vinte segundos com a secreta esperança que ele se asfixie num daqueles termos supercomplicados. Finalmente, como não há nada a fazer e ele parece um tgv a alta velocidade, sem paragens e debitando cada vez mais  teorias obscuras e indecifráveis, é vê-los a fazer a chamada retirada estratégica, com várias desculpas, entre as quais “ deixei uma panela ao lume com o refogado” ou “o pai do meu filho nao se está a sentir bem, vou ver o que ele tem...”.
Há técnicas especializadas para lidar com este tipo de  colegas, quando por ventura ou um grande azar, não há possibilidades de fuga. É como se fosse um manual de procedimentos para não enlouquecer, instituído e divulgado por quem já ganhou traquejo e experiência ao lidar com estas pessoas.
Devo reconhecer que, na primeira vez, foi aflitivo. Nao reparei que toda a gente se tinha ido embora, e quando ia fazer marcha-ré, uma parede se intrepôs...o tipo cravou os olhos na minha pessoa e iniciou logo uma dissertação acerca da história das sociedades, encarada como um longo processo dialético em que as classes oprimidas eram vítimas de relações de produção desiguais, tretas que me puseram logo com suores frios e em pânico. Depois relembrando as dicas dos parceiros veteranos, iniciei o plano de contingência estipulado. Tudo passa por manter o olhar em frente, acenar com a cabeça e  ir repetindo de vez em quando: “... sim... pois...”. Depois é limpar a mente e impedir que todo o lixo que ele está a produzir possa penetrar no nosso cérebro, evitando assim danos irreversíveis. Não esquecer o “... sim... pois...” e está aberto o caminho para a nossa imaginação inventar qualquer coisa para passar o tempo, enquanto observamos um indivíduo a ruminar e a acenar com  as mãos... a minha mente desatou logo a inventar um mundo alternativo...

Neste País, está proibido o uso de vocabulário complicado. Foi implementado um regime totalitário, repressivo e rígido baseado nesta regra de ouro: não às palavras dificeis. O administrador de um blog chamado “Naredeiremergir” foi mesmo detido, por atentado à Nação, por insistir na divulgação de palavras como consagrar, volitar, supuser, almejar...eu próprio quando descrevo estes termos, sujeito-me a ser mais uma vítima da P.I.D.E (Palavras Impossiveis de Dizer e Entender), instrumento impedioso e implacável, constituída por polícias de farda e chapéus cinzentos, estilo Bogard do filme Casablanca, e que têm como missão fazer cumprir a Lei Marcial. Se tenho medo? Negativo. Receio de ser apanhado, com certeza, pois ninguém fica indiferente quando se é levado por estes fascínoras para a cela e se está sujeito à tortura da música... 24 horas a ouvir o “ai se te pego” continuadamente. Quem sobrevive, nunca mais é o mesmo... Mas também não quero ser um carneiro, quero ter direito a expressão livre. Tenho um tasco ao pé de uma estrada pouco movimentada, onde sirvo bebidas à clientela sequiosa, mas é apenas um disfarce, uma camuflagem para uma célula rebelde que acredita no livre acesso ao diccionário. Como cabecilha deste grupo, creio nos ventos de mudança,  no purificar deste sistema político que nos condiciona o poder de escolha, num compromisso com o uso livre das palavras. Por isso encetamos acções clandestinas, distribuimos propaganda anónima com poesia, pintamos versos de Fernando Pessoa nas paredes...
Uma sirene ensombra a noite. Quatro viaturas policiais param em frente ao bar, fazendo levantar uma nuvem de pó negra. Estou a limpar o balcão com um pano, mas tenho um mau pressentimento quando vejo oito fardas cinzentas a entrar decididas. Será que fui traido? Não há pistas deixadas para trás, tudo é feito com o máximo de rigor e sigilo. Um dos tipos, de óculos escuros que o torna ainda menos humano, crava-me com algemas nos pulsos enquanto vai enunciando, com uma voz monorcórdica, o decreto de lei infrigido, respectivas alíneas e lenga- lengas associadas ao procedimento penal. Nem reajo. Sinto-me vazio. Sempre tive como idolos os cantautores e as canções de intervenção, que subliminarmente indicavam revolta, e penso que se calhar, abusei da sorte e a minha mensagem era demasiada óbvia. Para ter a certeza, já no exterior, antes de entrar no veículo, questiono um deles, aquele que me parece menos antipático.
Porquê?
Ele não responde. Apenas aponta para a tabuleta do meu tasco, confirmando e revelando tudo com aquele gesto. As letras garrafais, em neon, denunciam-me:
                                               “DEAL     BAR”     
Pelos menos, eles aprenderam o significado.
Acordei do transe. O tipo continua embalado, mandando perdigotos enquanto se regala, quando fala na concepção dinâmica da realidade e os princípios da dialética, reinterpretando-os à luz de uma visão materialista... Olho para o relógio. Passaram-se 17 segundos. Estou lixado...
                              
 FIM
PS:  se por ventura, existir alguem que não gostou daquilo que escrevi, estou disposto a ouvi-lo com toda a atenção do mundo, pois estou receptivo às criticas: ... sim... pois... sim... pois...


de Fernando Amorim (pai de Filipe Amorim - 4 anos)