abril 09, 2012

DEALBAR

















Dealbar - v. t. (Do latim dealbāre, «branquear»)
1.Tornar branco
2.Em sentido figurado: purificar
 
Abril...
A saborear tempos de Primavera, tempos brancos, tempos mornos... e sentados. 
Preguiçamos dando as boas vindas a tempos mais auspiciosos, mais lânguidos mas no entanto mais resolutos.
Sentados, bendizemos glórias, escutamos cânticos de louvor e enfrentamos mais um compromisso. Um compromisso de honra, de purificação perante a vida.
Deixamos um luto invernoso e guiamo-nos em passos pequenos, mas certos, em direcção a mais uma estação pascal, mais uma etapa íntima, privada, secreta... Dignamo-nos a vestir o branco em sinal de pureza, reafirmamos com segurança férrea a nossa fé, dealbamo-nos perante o negro do passado, os cinzas do presente e sem crucifixos dignos de nota, sentamo-nos e olhamos de frente uma nova aurora. 
É hora! É hora de dealbar os nossos crimes, branquear sacrifícios e luzir.
 
(Até 20 de Abril, envie os seus textos sobre, claro está, o verbo Dealbar!)

abril 02, 2012

Endrominar

Endrominar:

Ora aí está uma palavra que muito significado tem para os portugueses.
Ou porque pertencemos à classe dos endrominados, vulgo honestos, ou somos os que endrominamos, mais conhecidos por "chico esperto".
Existe o chico esperto mais banal, aquele para o qual enganar é um ato do quotidiano, um desporto, um ato quase instintivo, ele:
- estaciona nos lugares de grávidas e deficientes sem qualquer vergonha ou sentimento de culpa;
- passa à frente nas filas de supermercado porque tem mais pressa do que todas as outras pessoas que esperam pacientemente a sua vez;
- avança com o carro no sinal vermelho porque ainda tem uns segundos enquanto os outros não ficam verdes.

Depois temos a classe dos profissionais... e esses acho que todos nós os conhecemos pelo mesmo nome, os políticos!
Esses recebem para fazer dessa arte o seu dia a dia.
Fazem-no tão bem que num estado democrático como o nosso, nós é que os escolhemos para essa árdua tarefa. No fundo eles não nos governam... eles governam-se enquanto lá estão para poderem gozar bem a sua velhice.
Eles dizem-nos que numa altura difícil como a que estamos a passar, todos temos de fazer sacrifícios, inclusive eles, que têm de abdicar de... de... ora bem eles têm que abdicar de ... pois, não me lembro quais são os sacrifícios deles. Mas se eles dizem que se sacrificam eu devo acreditar... ou será que eles me estão a endrominar?!

Bem, no fundo estou a ser injusta porque quem nunca endrominou que lance a 1ª pedra!

Catarina Braga (mãe da Matilde, 2 anos)

Endrominar

Sinceramente, nunca pensei que tal palavra existisse no dicionário. Imaginava-a antes naquele lote de palavras feias, no “gang” do calão e na companhia daqueles termos manhosos de fazer corar uma virgem e que normalmente são utilizadas quando insultamos o árbitro que achamos nós, é descaradamente da equipa contrária, só lhe faltando cair do bolso dos calções o cartão de sócio do clube em questão ou então um molho de notas verdes...Uma palavra do povo, era o que eu pensava que “endrominar” fosse.

Mas não, lá fui verificar no dicionário da Língua portuguesa, da Porto Editora, para ter a certeza e lá se encontra ele, com o estatuto social intocável, na página 57, sensivelmente ao meio, para não dar muito nas vistas e por prezar a discrição. Como vizinhança fui encontrar “endromínia” que pelas semelhanças, deve ser prima por parte da mãe, e que por questões óbvias se escusou a tecer qualquer comentário. Razões de ordem familiar, está visto. O “endurar”, vizinho de baixo e que se encontrava a fazer flexões de braço, para continuar a ficar rijo e forte como o seu irmão mais velho, “endurecer”, também se recusou a falar sobre ele por temer represálias, tendo no entanto referido entre dentes que nunca mais faria negócio com aquela besta, pois chegava bem os “vibroplates”, (o da publicidade do Paulo Futre em que ele conversa com pessoas com graves problemas de sincronização da voz com os lábios, o que faz parecer o anúncio uma novela venezuelana...) e os diversos frascos de baba de caracol que lhe foram impingidos com a promessa de  rejuvenescer 15 anos e ficar com o corpinho de Brad Pitt. O resto foi um chorrilho de palavrões e de insultos, fazendo-me crer que, nas horas vagas, se calhar o “endrominar” seria também árbitro ou fiscal de linha. 

Depois de bater em todas as portas e quando estava prestes a desistir, lá encontrei no fundo da página uma palavra que aceitou falar sobre o incómodo vizinho. Mas não foi fácil obter o seu depoimento: foi necessário negociar a entrevista com determinadas condições. A sua voz teria de ser transfigurada para a voz do Luisão do Benfica que é a voz mais grave que me recordo, e a imagem da sua cara teria de ser toda maquilhada com pixéis, a fim de evitar ser reconhecido. E foi assim que consegui obter do senhor ”Endra”, também conhecido pelos meios mais intelectuais como “anethum graveolens”, planta aromática, muito utilizada na cozinha sueca, alemã e finlandesa, a sua versão dos factos acerca do polémico visado …opps, acho que estraguei tudo ao revelar a fonte…

- Já ninguém o pode ver…nem pintado. Ele tem a mania que é da alta sociedade e exige ser tratado por senhor Léxico em vez de verbo…Toda a gente se queixa de ter sido ludibriado por este artista bem-falante. São pulseiras magnéticas que curam qualquer maleita, são livros do “viver melhor” que aconselham chás de urtigas para os ataques de caspa, são cartões de créditos e seguros de saúde inúteis, mas que têm uma imensidão de clausulas em letras microscópicas que te agarram como carrapatos para o resto da vida para nunca mais te largar, são produtos para dietas que te fazem passar 80% do tempo a correr para as casas de banho, o que realmente faz emagrecer, tal a aflição para encontrar o mais rápido possivel uma sanita…mas a cereja em cima do bolo foi quando ele apareceu um dia, a propor a todas as pessoas: “queres tornar-te rico com apenas uma pergunta?”. Como parecia um bom negocio, pois apenas pedia 10 euros para desvendar este negocio da china, foi num instante que ele encheu uma sala com umas centenas de pessoas ávidas e gananciosas  por saber como era possível. Foi então que, com muita pompa e circunstância, ele subiu para o púlpito improvisado para o efeito de modo a que fosse visivel  pela  multidão, e da maneira mais cool e descontraída, apenas disse o seguinte:

-obrigado pela generosa contribuição monetária. Agora, só devem encontrar mais um lote de ingénuos e dizer-lhes: “queres tornar-te rico com apenas uma pergunta?”...

E se isto não é fazer jus ao verbo endrominar, então não sei não...

Fernando, pai de Filipe Amorim ( 4 anos)

Endrominar

v. tr.,
intrujar, trapacear, enganar.
“Passar a perna”, “levar a melhor” ou até levar “gato por lebre”, é o que nos acontece (infelizmente) muitas vezes! Não é uma palavra lá muito digna, verdade seja dita! Mas aí reside o paradoxo: se existe “honestidade”, obrigatoriamente tem de haver algo ou alguém a “endrominar”! Será a inevitável saga do equilíbrio? Do positivo e do negativo? Do que é bom e do que é mau? A vida endromina-nos vezes sem conta, desde as mais complexas questões às mais fúteis e banais “insignificâncias” do quotidiano. Ninguém gosta, mas, certamente, todos aprendemos com esta realidade! Será, então, a lição do inevitável “endrominar” da vida? Não vos vou enganar...pois não sei a resposta!!
Filipa Marinho Caldeira
(mãe do Hugo Caldeira – sala dos 3 anos)