março 03, 2012

Volitar

Volitar. Verbo intransitivo: esvoaçar

A influência é terrivel. Como no outro dia, sentadinho no sofá, como qualquer homem casado que se preze e que almeja o estilo de vida do Homer Simpson (...isto é, depois de fazer o jantar e ter aspirado a casa...), admirei o filme “máquina zero” de Sam mendes, e relembrando outro clássico do cinema “nascido para matar”, de Stanley Kubrick, ambos os filmes retratos do serviço militar no seu pleno esplendor, lembrei-me a falta de melhor, relatar alguns episódios da minha prolongada vida militar em que me sujeitei a esta máquina oleada de fazer máquinas de guerra que é o exército português....Comparando com o meu pai, ele esteve na Angola 18 meses e trouxe uma tatuagem e belas e exóticas fotos a preto e branco, eu estive quatro loooongos meses e apenas trouxe uma micose nos pés... Os tempos mudam...volitemos pois nessa mem

                     Episódio 1. Destino.

Isto é um clássico. Naquele outro ritual da nossa juventude a que chamam inspecção militar onde após uma bateria de exames, te caribam como apto ou não para  circular na “estrada da tropa”, mais ou menos como fazemos aos nossos carros, há sempre a pergunta:” para qual a zona onde gostarias de fazer serviço militar?”...Pois, era certo e sabido que ias parar a mais de 200 kms do local escolhido. Gosto de imaginar que para este serviço que era escolher o rumo dos denominados mancebos, tiveram de arranjar o gajo mais embirrento do país, pior ainda do que o ministro Gaspar. Um soldado com laivos de sadismo, dotado de um riso maquiavélico tipo Arqui-inimigo do Batman, Joker, enquanto nas suas mãos passava o nosso destino... E claro, tinha de incluir no menu a obrigatoriedade de ter de andar de autocarro ou de comboio  a noite toda de domingo...a mim calhou-me pois no edital uma temporada em Lisboa, regimento de lanceiros para ser “cabeça de giz”, alcunha dada á policia do exército pelos seus capacetes brancos com a descrição “P.E”. Isto promete...

                          Episódio 2. Camaradagem.

Cerca de trinta jovens formam um pelotão. Todos com o mesmo corte de cabelo, o que não pode ser coincidência e a quem dão as mesmas roupas, as mesmas botas, o mesmo tipo de cacifo e de beliche. Vimos todos de várias zonas do País, desde o Minho ao Algarve, desde o grandalhão abrutalhado emigrante da França, ao desengonçado benfiquista até ao franzino metaleiro a quem o corte da gadelha lhe retirou a pinta  toda. Todos diferentes, todos iguais.

Na tropa, não há colegas. Chamar isso a alguem é insultuoso, é a mesma coisa que prostituta. Na Tropa somos todos camaradas. O que dá até um certo ideal de comunismo, pelo facto de fardarmos todos iguais...mas depressa essa idealogia passa quando te gamam o cobertor no primeiro dia...

Depressa entramos no espírito da coisa. Estranha-se mas lentamente entranha-se o funcionamento da instituição militar: uma hierarquia rígida em que fazes constantemente continência, uma pirámide em que, quanto mais  sobes, menos fazes. O soldado, sendo a base e o elo mais fraco da cadeia, ironicamente põe tudo a funcionar. Mas como cerca de 93% de quem está a ler isto se deve rever na empresa onde trabalha, seguimos em frente.

Tudo funciona por ordens e consequentemente por castigos. E se um falha, todos cumpram a punição. A moeda em uso chama-se flexão de braço e é usada recorrentemente. Um exemplo: o Furiel grita ou melhor cospe a ordem de que temos dois minutos para nos fardarmos, mas avisam-te já que um destes minutos já se escoou. E enquanto corremos como desalmados, há sempre o molengão que que gosta de se vestir com calma, que aprecie com deleite os pormenores da vida enquanto vai calçando a bela da bota. Enquanto isto, os restantes 29 solados esperam em solidariedade, numa posição confortavel, na horizontal, braços esticados, preparados para cumprir mais uma dose de flexões.

No fim do dia, estafados de tantos castigos, convivemos pacificamente na camarata. Dá-se graxa ás botas, que tem de ter aquele brilho que só vemos nos anúncios publicitários da Colgate, conversamos e há quem quer ouvir no seu  leitor de k7s , os riffs poderosos de guitarra dos Nirvana... De repente, vemos o mesmo leitor a volitar literalmente, despedaçando-se em mil bocados numa parede. O sossego volta, e estranhamente, não há testemunhas... Afinal, o Franzino metaleiro tambem nao teve pressa em se fardar...

Episódio 3. Contactos.

Eu ainda sou do tempo, como se dizia num famoso anúncio publicitário, em que, para se fazer uma chamada, ainda tinhamos que ir á cabine telefónica. Séculos passados, dirão uns. Onde é que deixavas a armadura de cavaleiro e a espada, dirão outros. Não, já estavamos em 1995...O tempo é que tem pressa  e tambem volita sem pedir licença. Os telemoveis ainda eram uns grandes e caros “tijolos”, fora do acesso do comum mortal.. .

O facto é que eram assegurados uns largos minutos na fila, a aguardar a vez para a chamada mágica que destrancasse a porta da saudade. Enquanto se esperava, ouvia-se as conversas dos outros, desde a noticia do tio Alberto que não  defecava há mais de uma semana, porque tinha limpo o rabo com sacos de cimento, ou então as eternas juras de amor para a donzela, na província, esperando secretamente de que os amigos da onça não passasem ao contra-ataque...

  E ai de quem se atrevesse a passar à frente da fila!... Nem que fosse o proprio Clark Kent, com a desculpa de “ ai e tal, tenho de vestir a roupa de super-man para salvar o mundo ...” se safava. Levava já para tabaco. Rigor e ordem. Mais nada.

                           Episódio  4. Os bosses.

As chefias. Lembro-me perfeitamente de dois deles. Ficaram na retina, por diversos motivos:

O Alferes. Só convivemos com ele uma semana. Um tipo normal, se tomarmos em conta o estilo dito militar. Sacudia as responsablidades todas para cima do furiel no que se tratava da instrução aos soldados, desde o tiro com a metralhadora g3, que pela data de fabrico possivelmente foi usada pelo meu avô, ou pelo ensinamento do perigo das granadas, o que levava a que sempre que fosse arremessada uma mera pinha para o meio de pessoal, mesmo na pausa para o cigarrinho, tivessemos que nos atirar para o chão duro, cheio de pedras, de certeza colocadas estrategicamente no local pelo exército com a intenção clara de nos magoar.

Parecia estar sempre constipado, e tinha a mania de apreender sem retorno possivel o material que deixavamos esquecidos em cima das camas imaculadas. Porque é que que me lembro dele, então?...É que afinal, aquilo que considerava ser  gripe era afinal uma grande dependência de uma certa substância que faz rir, que o levava a pedir constemente dinheiro emprestado  para pagar o seu vício. A ironia é que que a chamada “Casa da Rata” nome dado á casa de reclusão dos militares, ficava exactamente a frente da camarata...Durante dois dias, lá estava o passarão, ex-mandão, agora caído em desgraça e a quem já era possivel entabular uma conversa, nem  que fosse apenas para nos cravar um cigarrinho..Naquela gaiola, já nao conseguia volitar.

O Tenente. Dele lembro-me por um episódio marcante. Eram  frequentes  os grandiosos desfiles na Parada, uma amostra de força, organização e na minha opinião da vaidade dos comandantes, no despique do  prémio “o meu pelotão é melhor do que o meu”.Treinavamos a marcha em pelotão todos os dias, fizesse chuva ou sol, para que, qual autómatos afinadinhos, fizessemos figura nesses dias.

Como é que ele era? Inacessível. De grande porte, sempre impecável na sua farda e com uma voz tenebrosa a fazer lembrar um dia de trovoada, com uma cara austera, onde era raro ver nela algo que não fosse desdem por toda e qualquer classe militar inferior. Estranhamente e contrastando com este quadro, uma maneira esquisita de andar, que ficava algures entre uma libélula e uma gazela bêbada...

Nesse dia em particular, tudo corria mal para o desengonçado benfiquista, péssimo atleta na arte da marcha. Todo ele parecia uma marioneta desconchavada e dava a sensação  ser ele o único soldado que estava com o passo certo. Nem perante a iminente passagem em frente ao Tenente, a coisa melhorou. Sob o olhar fuzilante do mesmo e suando ás estopinhas, as pernas teimavam em não encontrar o ritmo certo...De repente, recordo-me perfeitamente pois ficou marcado na minha memória em slow-motion, foi ver o Tenente, não sustendo mais a impaciência, vermelho como um pimento assado, a saltar da tribuna e correndo, melhor dito, volitando como uma borboleta, para depois num salto sobre-humano, tal como um jogador da NBA, cair com um grande sopapo em cima do pobre soldado. Abanou os alicerces com o calduço que levou, mas milagre dos milagres, todo ele se transformou em operacionalidade e cadência. Até nós melhoramos o empenho, não viesse de cima outro “incentivo”...

                          Episódio 5. O cadeado

O jantar de pelotão foi demoníaco. A culpa é de juntar na mesma mesa 30 jovens sedentes de alcool e que, apesar dos avisos de que os excessos  iriam ser pagos em “marcores” (correr fardados e de metralhadora na mão por Belém e arredores e depois terminar a rastejar na pista de combate..) e G.A.M. (ginástica até á morte...), nem assim os demoveu. Foi duro. Muito duro. Ficamos  tao bêbados que até estávamos orgulhosos de pertencer ao Exêrcito. Muito mau, mesmo...

Quando chegamos ao quartel, tentando fazer o minimo de zigzages possiveis para não dar nas vistas, o grandalhão abrutalhado emigrante da França, ao chegar ao seu cacifo, começou a gritar, trôpego, de que lhe tinham mudado o cadeado, pois a chave nao servia. Imediatamente e para evitar que ele continuasse o chorilho de palavrões, lá fomos buscar o pé de cabra, utilizada para quem se esquecia de trazer as chaves..Com um golpe, seco, o cadeado ficou desfeito e quando todos se dirigiam para a cama, felizes por ter ajudado um camarada, o grandalhão abrutalhado voltou á carga para avisar que afinal, tinha-se era enganado de cacifo!!!... Mal menor: o cacifo era do  franzino metaleiro...Lá fechamos o cacifo e colocamos o cadeado de modo a que, se ninguem lhe tocasse, parecesse estar devidamente fechado.O grandalhão abrutalhado, esse, já branco como cal, titubeando, apenas disse qualquer coisa parecida com ”tenho qle ir volitar...”, talvez antecipando com alguma arte advinhatória, por alguns anos o texto que iria fazer sobre esta palavra. O que ele acabou mesmo por fazer, foi chamar o gregório e passar a noite toda com a cabeça junto á sanita...

                          Episódio  6. Despedida.

Muito haveria ainda por dizer,

Jurei bandeira. Sobre o sol abrasador, numa Parada a ferver, e com a multidão constituida pelas orgulhosas familias, senti-me como o gato das saquetas Wiskas, salve seja a publicidade...repeti o discurso sobre prometer solenemente defender o país, blá, blá, blá...só pensava era numa mini fresquinha... simbolizado pela bandeira, blá, blá, blá...uma mini geladinha...

A semana de campo foi tambem divertida. Grandes caminhadas, um capacete com ramos  a enfeitar, numa tentativa vã de nos camuflar no meio ambiente mas que nos fazia parecer veados alucinados, sessões de campismo gratis e umas belas rações de combate que iriam fazer inveja ao Nuno Markl, o tipo da caderneta de cromos que adora as coisas dos anos 80. A ração de combate, para ele, ia ser um tesouro, tal a quantidades de alimentos que julgavamos extintas e que afinal estavam ao alcance de qualquer tropa...

Ao fim de quatro intensos meses, finalmente o fantástico momento denominado espólio, em que todo o material é novamente devolvida á procedência. E lá tem de um soldado procurar em cama alheia o cobertor que falta...a tropa manda desenrascar, frase feita mas com o seu quê de verdade....o Ritual manda que gritemos a plenos pulmões a palavra “Espólio”, palavra tão bonita naquele dia. Uma despedida em que só ficam aqueles que tiveram a infeliz ideia de prolongar o contrato com a instituição...é vê-los sentados nos beliches, com semblante acabrunhado e cara quase chorosa ( pois militar não chora.) de quem acabou de cometer um grande erro...  

Já sem a odiada farda, de roupa civil, um último olhar para todo o quartel, onde sentimos ter feito parte de algo maior, uma sensação de pertença e até de um certo orgulho até agora reprimido. Agora era a vez de dar ás asas, voltar aos nossos mundos, de preferência com penteados mais estilosos e VOLITAR, pois então.

...Ah, e lembram-se de no início deste texto ter falado sobre a máquina de guerra que o exército me iria tornar. Pois, olha, só me senti essa máquina quando no bar do quartel, nesse local onde se bebe umas bojecas por um preço simbólico e se relatam os feitos heroícos (por exemplo, do soldado anónimo que “arreou o calhau” em cima do brasão do quartel, que fica no meio da Parada e que é proibido pisar...), fui encontar  o videojogo 1945. À custa de alguma moedas de vinte escudos, posso-me  gabar ter conseguido entrar no panteão dos 10 melhores jogadores daquele dia, ao comando de um avião, exterminando hordas de inimigos duros de roer. Que máquina de guerra...

                        Fim.

Fernando, pai de Filipe Amorim, Sala dos 4 anos e único sobrevivente do holocausto “nao consigo escrever um texto acerca de uma palavra dificil”...

Ps: sete vezes que utilizei o verbo volitar em várias formas. Considero pois a missão concluida.

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