junho 25, 2012

FARREAR

                                   Farrear ou a vã  gloria  de fazer (muito)arroz doce.


PLANO A: colocar um aviso em que informo que, devido ao facto de haver a feira medevial em  Moreira da Maia e que, cavalgando no nosso garboso carro, iremos a esta nobre cruzada, na heróica luta contra a sangria e o pão com chouriço;
 Por se ter iniciado a feira do livro no Porto, e adoramos saltar de banca em banca, ganhando espaço com os cotovelos ( no boxe é proibido mas isto não é desporto...) na busca da grande pechincha que satisfaça cada membro da família sem ultrapassar o budget definido;
 Por ser o fim de semana de Serralves, grande sensação cultural e de recreio da cidade, mesmo tendo como eterno handicap as tentativas goradas de estacionar o carro nas ruas circundantes, sem que apareça o raio do arrumador com o jornal enrolado na mão, a comandar as manobras, solicitando amavelmente a moeda, sem nenhuma contra partida, embora saibamos não ser saudável  para o nosso querido veículo dizer “não”;
  Por querer experimentar a mesa de piquenique desdobrável que adquiri no Jumbo, feita de muito plástico e pouco metal,  que  geme de aflição mas que aguenta estoicamente o nosso peso, depois de todos acomodados nos seus ridículos bancos...
Ou seja, por ter muito onde farrear,  fica o leitor  encarregado de fazer o TPC, que é verificar por si mesmo o significado da palavra. Levante o rabo do sofá e aproveite as minhas dicas...ponto final. Texto concluído.

PLANO  B: relatar  como naquela segunda feira, depois de trazer da nossa bela terra, Paredes de Coura, uma garrafa de litro e meio de leite da vaca, vindo directamente do produtor, me passou pela cabeça  que poderia ser um grande “chef” de cozinha como o Henrique Sá Pessoa e decidi que iria fazer um belo de um arroz doce, surpreendendo assim a família com a minha versatilidade na arte da  culinária, conquistando admiração pelo paladar. 
Infelizmente, não tenho daqueles aventais de cozinha com a estampagem de um  corpo bronzeado e musculado, e que faria toda a diferença se cozinhar fosse apenas estilo e não técnica.  Também verifiquei no google e não existe á venda o livro “Arroz doce para Totós “, o que me parece uma falha imperdoável. Dois contratempos iniciais que não fizeram esmorecer a minha vontade de brilhar. Lá encontrei finalmente  uma receita mal amanhada, numa gaveta da cozinha, escrita com gatafunhos estilo médico de família, mas sem a descrição das  quantidades, o que achei não ser grave pois confio totalmente no meu paladar para acertar medidas. Coloquei o leite na panela para ferver, com a  casquinha de limão e o pau de canela a flutuar. Ocasionalmente, quando estes se juntavam, dava a ilusão de uma jangada com uma vela quase a afundar. Mais uma tentativa frustada de Robinson Crusoe sair da ilha, fantasiei eu, as tempestades de leite são terríveis para este naufrago.. .
Quando chegou a vez do arroz, uma leve dúvida se levantou. Que quantidade deitar? Depois de abrir o saco,  abanei os ombros  e despejei o conteúdo todo. É nessa parte que ignorantes como eu consideram assinalável o meu poder decisório. Os entendidos da cozinha, neste momento arrepiam-se e pressentem que  algo vai correr mal,  tal a quantidade insana de arroz que acabei de deitar.
Logo verifiquei o lapso cometido. Para além de estar sempre a acrescentar mais e mais leite, a panela começou a tornar-se pequena. Tal como as Matrioskas, bonecas tradicionais de madeira russas, compostas por várias figuras que vão da mais pequena á maior, também eu fiz mais ou menos igual, só que com as panelas, mudando diversas vezes, conforme o crescimento do seu conteúdo.
Não sei se conhecem a banda desenhada do “Calvin e Hobbes”, que o jornal Público  publicava na última pagina, há uns anos. Era acerca das aventuras de um miúdo rico em imaginação e do seu tigre de peluche. Pois este rapaz, quando era obrigado a comer as refeições que a mãe lhe punha em frente, fantasiava que  a comida ganhava vida, transformando-se em monstros, com quem lutava com os talheres. Pois EU posso dizer que me senti um Calvin. Gerei mesmo um monstro. Cada vez maior, implacável, que teimava em transbordar para cima do fogão e que era insaciável, pois consumia quantidades cada vez maiores de leite.
Finalmente, depois de meia hora de combate intenso com a minha colher de pau, de suor e desespero, de preces para que parasse de se agigantar, o monstro lá se acalmou, dentro da terceira panela, repousando já com umas quantas colheres de açúcar. O saldo final da batalha foi: cerca de quatro litros de leite gastos,  três enormes travessas de arroz doce quente e enfeitado com canela, que me encheram a mesa, e ainda um fogão imundo e uma bacia cheia de panelas á espera de serem lavadas. Ainda pensei em gastar algum  arroz para tapar algumas fissuras das paredes de casa ou nos buracos que deixamos quando se pendura quadros. Também me lembrei  de moldar uma réplica do Cristiano Ronaldo, em tamanho real, feito de arroz doce, o que poderia  ser o embrião do futuro “museu de bonecos de arroz doce de Fernando Amorim”. Acho que até tinha material suficiente para as namoradas todas dele. E não são poucas...
Enfim, e para conclusão da história: já dizia a minha a minha tia Dulcineia, que para se farrear, é preciso a barriga cheia. Eu nem tenho uma tia com este nome, mas nós, encarregados de educação, tornamo-nos em nome dos filhos peritos nos desenhos animados e lembrei-me do jardineiro da “ilha das Cores”, que tinha sempre um ensinamento vindo de um familiar  e que rimava... Para além de dar um ar de sabedoria popular que fica sempre bem.
 Ponto final. Texto concluído. A tempo de ir jantar. A ementa de hoje é frango assado com...arroz doce. E escuso de referir qual vai ser a sobremesa pela 15ª vez seguida.... e não esquecer de avisar a família que não convém usar a mesa de piquenique nos próximos seis meses, para segurança dos seus ( futuros obesos..) utilizadores...


PLANO C: incluir o plano A e B. Está decidido, definitivamente, este plano é o melhor.



                                                           Fernando, pai de Filipe Amorim, 4 anos

maio 03, 2012

DEALBAR

Verbo Dealbar: v.t. (do latim dealbãne "branquear")
1-tornar branco
2-em sentido figurado:purificar

Abril é o mês da Primavera e também mês do advento, o prenúncio da vinda, o dealbar da esperança.
A Primavera dá-nos esperança, ao vermos o florescer da natureza, e damos boas vindas a tempos mais auspiciosos.
Nestes tempos brancos bendizemos glórias, escutamos cânticos de louvor e enfrentamos um grande compromisso de honra, de purificação perante a vida. Deixamos para trás o tempo invernoso, as nuvens negras que pairavam em cima de nós e deixamo-nos guiar em passos pequenos mas certos, em direção a mais uma estação pascal. Isso mesmo, Abril, mês de Páscoa, que se quer uma etapa íntima, privada e secreta, mais do que uma época do ano em que há mais consumo, festa e férias.
Uma época que nos instigue a vestir o branco em sinal de pureza, reafirmando com segurança férrea a nossa fé, dealbamo-nos perante o negro do passado, as cinzas do presente e sem preocu~pações dignas de nota, sentamo-nos e olhamos de frente para uma nova aurora. 
É hora! É hora de dealbar os nossos crimes, branquear sacrifícios e brilhar...

Cátia (mãe de Daniel Rubim- sala de 1 ano)

DEALBAR

A palavra dealbar remete-me inevitavelmente para o último ano de faculdade.
Nessa altura, eu fazia parte do Núcleo de Divulgação Científica (NDC), uma associação de alunos de Engenharia Química da FEUP que tinha como principal objectivo divulgar o que de melhor se fazia em termos científicos na instituição fazendo chegar a ciência a grupos que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a ela.
Já não me recordo exactamente como, foi proposto ao NDC organizar as 2as Jornadas de Engenharia Química em parceria com o Colégio de Engenharia Química da Ordem dos Engenheiros subordinadas ao tema: “O engenheiro Químico no dealbar do novo século”. Acho que foi esta a primeira vez que tive contacto com a palavra dealbar.
Coube-me a árdua tarefa de dissertar sobre o tema na presença de tão ilustres convidados como o Eng. Belmiro de Azevedo, Eng. Ferreira de Oliveira, Eng. Ramôa Ribeiro, entre outros menos conhecidos mas não menos prestigiados.
Lembro-me que a minha intervenção foi curta mas marcante. Reflecti sobre os desafios que o novo século nos reservava enquanto recém-licenciados. Os receios eram alguns pois o mercado de trabalho apresentava-se difícil e receoso. Hoje, à distância de quase 10 anos, vejo que os desafios que enfrentávamos eram bem fáceis comparados com os que os recém-licenciados (ou recém-mestres) de hoje, enfrentam independentemente da formação que possuam.
Do grupo de amigos que ficou depois do curso, todos nós estamos bem. Uns melhor do que outros mas todos nos conseguimos encaixar no mercado de trabalho, ter empregos não-precários e com salários razoáveis.
Os licenciados que hoje dealbam, certamente, terão um caminho mais sinuoso e díficil de percorrer do que nós tivemos. É evidente que há sempre excepções mas o futuro apresenta-se hoje, muito mais sombrio do que há uma década atrás. E o grave, é que para nós também se apresentou mais díficil do que na década anterior.
Resta-nos esperar que os ciclos típicos das economias de mercado se cumpram e que a crise chegue ao fim permitindo o dealbar de uma nova era de prosperidade e qualidade de vida.

Carla Durão
(Mãe de Mafalda Alvarim – 4 anos)

DEALBAR

Dealbar
Ao longo da vida, todos nós encontramos no nosso percurso académico, profissional ou mesmo nos tempos livres, os denominados “cromos”. Não aqueles que vão aos ídolos para serem cravejados pela metralhadora de insultos chamada Manuel Moura dos Santos, mas sim estes espécimes únicos no mundo, que julgam saber tudo, quando é notório que não sabem nada e que, pelo seu comportamento altivo e de uma aparente superioridade, nos provocam uma grande impressão. Ao pé de um destes artistas, sinto uma vontade enorme de recorrer à violencia, mas como não sou apologista, apenas me vem o desejo de que o seu nariz venha bater no meu punho fechado, com muita força...
Tive por exemplo um colega que gostava de mostrar que era inteligente. Uma mania que até poderia ser banal, não fosse o facto desse indivíduo recorrer sistematicamente a uma estratégia que passava por ir à biblioteca  requisitar livros, tais como o “manifesto  do partido comunista”, de Engels e Marx ou então “A Náusea”, de Jean Paul Sartre, somente para decorar algumas passagens mais rebuscadas e assim introduzi-las em qualquer contexto de uma conversa.  Se por acaso eu falo no tempo, lá vai ele referir que a existência é gratuita e ilógica e essa constatação por cada um de nós é algo terrível e fora de aceitabilidade. Se eu toco nalgum assunto referente à política, ele desata logo a descrever que isto é fruto da  burguesia ter rasgado o véu de emoção e da sentimentalidade das relações familiares e reduziu-as a mera relação monetária... Quando ele discursa e consegue encaixar os termos decorados, imagina-se o maior, o Mourinho do Conhecimento, o “el Comandante” das teorias revolucionárias e filosóficas. A realidade é porém outra: a assistência primeira fica de sobrolho franzido, como se estivesse perante um alien vindo de um planeta distante. Depois ainda aguenta uns vinte segundos com a secreta esperança que ele se asfixie num daqueles termos supercomplicados. Finalmente, como não há nada a fazer e ele parece um tgv a alta velocidade, sem paragens e debitando cada vez mais  teorias obscuras e indecifráveis, é vê-los a fazer a chamada retirada estratégica, com várias desculpas, entre as quais “ deixei uma panela ao lume com o refogado” ou “o pai do meu filho nao se está a sentir bem, vou ver o que ele tem...”.
Há técnicas especializadas para lidar com este tipo de  colegas, quando por ventura ou um grande azar, não há possibilidades de fuga. É como se fosse um manual de procedimentos para não enlouquecer, instituído e divulgado por quem já ganhou traquejo e experiência ao lidar com estas pessoas.
Devo reconhecer que, na primeira vez, foi aflitivo. Nao reparei que toda a gente se tinha ido embora, e quando ia fazer marcha-ré, uma parede se intrepôs...o tipo cravou os olhos na minha pessoa e iniciou logo uma dissertação acerca da história das sociedades, encarada como um longo processo dialético em que as classes oprimidas eram vítimas de relações de produção desiguais, tretas que me puseram logo com suores frios e em pânico. Depois relembrando as dicas dos parceiros veteranos, iniciei o plano de contingência estipulado. Tudo passa por manter o olhar em frente, acenar com a cabeça e  ir repetindo de vez em quando: “... sim... pois...”. Depois é limpar a mente e impedir que todo o lixo que ele está a produzir possa penetrar no nosso cérebro, evitando assim danos irreversíveis. Não esquecer o “... sim... pois...” e está aberto o caminho para a nossa imaginação inventar qualquer coisa para passar o tempo, enquanto observamos um indivíduo a ruminar e a acenar com  as mãos... a minha mente desatou logo a inventar um mundo alternativo...

Neste País, está proibido o uso de vocabulário complicado. Foi implementado um regime totalitário, repressivo e rígido baseado nesta regra de ouro: não às palavras dificeis. O administrador de um blog chamado “Naredeiremergir” foi mesmo detido, por atentado à Nação, por insistir na divulgação de palavras como consagrar, volitar, supuser, almejar...eu próprio quando descrevo estes termos, sujeito-me a ser mais uma vítima da P.I.D.E (Palavras Impossiveis de Dizer e Entender), instrumento impedioso e implacável, constituída por polícias de farda e chapéus cinzentos, estilo Bogard do filme Casablanca, e que têm como missão fazer cumprir a Lei Marcial. Se tenho medo? Negativo. Receio de ser apanhado, com certeza, pois ninguém fica indiferente quando se é levado por estes fascínoras para a cela e se está sujeito à tortura da música... 24 horas a ouvir o “ai se te pego” continuadamente. Quem sobrevive, nunca mais é o mesmo... Mas também não quero ser um carneiro, quero ter direito a expressão livre. Tenho um tasco ao pé de uma estrada pouco movimentada, onde sirvo bebidas à clientela sequiosa, mas é apenas um disfarce, uma camuflagem para uma célula rebelde que acredita no livre acesso ao diccionário. Como cabecilha deste grupo, creio nos ventos de mudança,  no purificar deste sistema político que nos condiciona o poder de escolha, num compromisso com o uso livre das palavras. Por isso encetamos acções clandestinas, distribuimos propaganda anónima com poesia, pintamos versos de Fernando Pessoa nas paredes...
Uma sirene ensombra a noite. Quatro viaturas policiais param em frente ao bar, fazendo levantar uma nuvem de pó negra. Estou a limpar o balcão com um pano, mas tenho um mau pressentimento quando vejo oito fardas cinzentas a entrar decididas. Será que fui traido? Não há pistas deixadas para trás, tudo é feito com o máximo de rigor e sigilo. Um dos tipos, de óculos escuros que o torna ainda menos humano, crava-me com algemas nos pulsos enquanto vai enunciando, com uma voz monorcórdica, o decreto de lei infrigido, respectivas alíneas e lenga- lengas associadas ao procedimento penal. Nem reajo. Sinto-me vazio. Sempre tive como idolos os cantautores e as canções de intervenção, que subliminarmente indicavam revolta, e penso que se calhar, abusei da sorte e a minha mensagem era demasiada óbvia. Para ter a certeza, já no exterior, antes de entrar no veículo, questiono um deles, aquele que me parece menos antipático.
Porquê?
Ele não responde. Apenas aponta para a tabuleta do meu tasco, confirmando e revelando tudo com aquele gesto. As letras garrafais, em neon, denunciam-me:
                                               “DEAL     BAR”     
Pelos menos, eles aprenderam o significado.
Acordei do transe. O tipo continua embalado, mandando perdigotos enquanto se regala, quando fala na concepção dinâmica da realidade e os princípios da dialética, reinterpretando-os à luz de uma visão materialista... Olho para o relógio. Passaram-se 17 segundos. Estou lixado...
                              
 FIM
PS:  se por ventura, existir alguem que não gostou daquilo que escrevi, estou disposto a ouvi-lo com toda a atenção do mundo, pois estou receptivo às criticas: ... sim... pois... sim... pois...


de Fernando Amorim (pai de Filipe Amorim - 4 anos)

abril 09, 2012

DEALBAR

















Dealbar - v. t. (Do latim dealbāre, «branquear»)
1.Tornar branco
2.Em sentido figurado: purificar
 
Abril...
A saborear tempos de Primavera, tempos brancos, tempos mornos... e sentados. 
Preguiçamos dando as boas vindas a tempos mais auspiciosos, mais lânguidos mas no entanto mais resolutos.
Sentados, bendizemos glórias, escutamos cânticos de louvor e enfrentamos mais um compromisso. Um compromisso de honra, de purificação perante a vida.
Deixamos um luto invernoso e guiamo-nos em passos pequenos, mas certos, em direcção a mais uma estação pascal, mais uma etapa íntima, privada, secreta... Dignamo-nos a vestir o branco em sinal de pureza, reafirmamos com segurança férrea a nossa fé, dealbamo-nos perante o negro do passado, os cinzas do presente e sem crucifixos dignos de nota, sentamo-nos e olhamos de frente uma nova aurora. 
É hora! É hora de dealbar os nossos crimes, branquear sacrifícios e luzir.
 
(Até 20 de Abril, envie os seus textos sobre, claro está, o verbo Dealbar!)

abril 02, 2012

Endrominar

Endrominar:

Ora aí está uma palavra que muito significado tem para os portugueses.
Ou porque pertencemos à classe dos endrominados, vulgo honestos, ou somos os que endrominamos, mais conhecidos por "chico esperto".
Existe o chico esperto mais banal, aquele para o qual enganar é um ato do quotidiano, um desporto, um ato quase instintivo, ele:
- estaciona nos lugares de grávidas e deficientes sem qualquer vergonha ou sentimento de culpa;
- passa à frente nas filas de supermercado porque tem mais pressa do que todas as outras pessoas que esperam pacientemente a sua vez;
- avança com o carro no sinal vermelho porque ainda tem uns segundos enquanto os outros não ficam verdes.

Depois temos a classe dos profissionais... e esses acho que todos nós os conhecemos pelo mesmo nome, os políticos!
Esses recebem para fazer dessa arte o seu dia a dia.
Fazem-no tão bem que num estado democrático como o nosso, nós é que os escolhemos para essa árdua tarefa. No fundo eles não nos governam... eles governam-se enquanto lá estão para poderem gozar bem a sua velhice.
Eles dizem-nos que numa altura difícil como a que estamos a passar, todos temos de fazer sacrifícios, inclusive eles, que têm de abdicar de... de... ora bem eles têm que abdicar de ... pois, não me lembro quais são os sacrifícios deles. Mas se eles dizem que se sacrificam eu devo acreditar... ou será que eles me estão a endrominar?!

Bem, no fundo estou a ser injusta porque quem nunca endrominou que lance a 1ª pedra!

Catarina Braga (mãe da Matilde, 2 anos)

Endrominar

Sinceramente, nunca pensei que tal palavra existisse no dicionário. Imaginava-a antes naquele lote de palavras feias, no “gang” do calão e na companhia daqueles termos manhosos de fazer corar uma virgem e que normalmente são utilizadas quando insultamos o árbitro que achamos nós, é descaradamente da equipa contrária, só lhe faltando cair do bolso dos calções o cartão de sócio do clube em questão ou então um molho de notas verdes...Uma palavra do povo, era o que eu pensava que “endrominar” fosse.

Mas não, lá fui verificar no dicionário da Língua portuguesa, da Porto Editora, para ter a certeza e lá se encontra ele, com o estatuto social intocável, na página 57, sensivelmente ao meio, para não dar muito nas vistas e por prezar a discrição. Como vizinhança fui encontrar “endromínia” que pelas semelhanças, deve ser prima por parte da mãe, e que por questões óbvias se escusou a tecer qualquer comentário. Razões de ordem familiar, está visto. O “endurar”, vizinho de baixo e que se encontrava a fazer flexões de braço, para continuar a ficar rijo e forte como o seu irmão mais velho, “endurecer”, também se recusou a falar sobre ele por temer represálias, tendo no entanto referido entre dentes que nunca mais faria negócio com aquela besta, pois chegava bem os “vibroplates”, (o da publicidade do Paulo Futre em que ele conversa com pessoas com graves problemas de sincronização da voz com os lábios, o que faz parecer o anúncio uma novela venezuelana...) e os diversos frascos de baba de caracol que lhe foram impingidos com a promessa de  rejuvenescer 15 anos e ficar com o corpinho de Brad Pitt. O resto foi um chorrilho de palavrões e de insultos, fazendo-me crer que, nas horas vagas, se calhar o “endrominar” seria também árbitro ou fiscal de linha. 

Depois de bater em todas as portas e quando estava prestes a desistir, lá encontrei no fundo da página uma palavra que aceitou falar sobre o incómodo vizinho. Mas não foi fácil obter o seu depoimento: foi necessário negociar a entrevista com determinadas condições. A sua voz teria de ser transfigurada para a voz do Luisão do Benfica que é a voz mais grave que me recordo, e a imagem da sua cara teria de ser toda maquilhada com pixéis, a fim de evitar ser reconhecido. E foi assim que consegui obter do senhor ”Endra”, também conhecido pelos meios mais intelectuais como “anethum graveolens”, planta aromática, muito utilizada na cozinha sueca, alemã e finlandesa, a sua versão dos factos acerca do polémico visado …opps, acho que estraguei tudo ao revelar a fonte…

- Já ninguém o pode ver…nem pintado. Ele tem a mania que é da alta sociedade e exige ser tratado por senhor Léxico em vez de verbo…Toda a gente se queixa de ter sido ludibriado por este artista bem-falante. São pulseiras magnéticas que curam qualquer maleita, são livros do “viver melhor” que aconselham chás de urtigas para os ataques de caspa, são cartões de créditos e seguros de saúde inúteis, mas que têm uma imensidão de clausulas em letras microscópicas que te agarram como carrapatos para o resto da vida para nunca mais te largar, são produtos para dietas que te fazem passar 80% do tempo a correr para as casas de banho, o que realmente faz emagrecer, tal a aflição para encontrar o mais rápido possivel uma sanita…mas a cereja em cima do bolo foi quando ele apareceu um dia, a propor a todas as pessoas: “queres tornar-te rico com apenas uma pergunta?”. Como parecia um bom negocio, pois apenas pedia 10 euros para desvendar este negocio da china, foi num instante que ele encheu uma sala com umas centenas de pessoas ávidas e gananciosas  por saber como era possível. Foi então que, com muita pompa e circunstância, ele subiu para o púlpito improvisado para o efeito de modo a que fosse visivel  pela  multidão, e da maneira mais cool e descontraída, apenas disse o seguinte:

-obrigado pela generosa contribuição monetária. Agora, só devem encontrar mais um lote de ingénuos e dizer-lhes: “queres tornar-te rico com apenas uma pergunta?”...

E se isto não é fazer jus ao verbo endrominar, então não sei não...

Fernando, pai de Filipe Amorim ( 4 anos)

Endrominar

v. tr.,
intrujar, trapacear, enganar.
“Passar a perna”, “levar a melhor” ou até levar “gato por lebre”, é o que nos acontece (infelizmente) muitas vezes! Não é uma palavra lá muito digna, verdade seja dita! Mas aí reside o paradoxo: se existe “honestidade”, obrigatoriamente tem de haver algo ou alguém a “endrominar”! Será a inevitável saga do equilíbrio? Do positivo e do negativo? Do que é bom e do que é mau? A vida endromina-nos vezes sem conta, desde as mais complexas questões às mais fúteis e banais “insignificâncias” do quotidiano. Ninguém gosta, mas, certamente, todos aprendemos com esta realidade! Será, então, a lição do inevitável “endrominar” da vida? Não vos vou enganar...pois não sei a resposta!!
Filipa Marinho Caldeira
(mãe do Hugo Caldeira – sala dos 3 anos)

março 12, 2012

Endrominar

ENDROMINAR

Endrominar: (endrómina.endrômina + -ar)
v. tr. e intr.
 
Verbo destinado ao mês de Abril, que além de ser o mês por excelência de águas mil (a ver vamos!) também é comemorado o dia das mentiras, logo ao dia primeiro.
 
Endrominados andamos todos os dias... seja pelas máscaras que todos usamos no quotidiano, vulgarmente e sem grande alarido, seja pelas nossas mais genuínas emoções! Quando falamos em emoções, dizem-se estas sempre verdadeiras... puro engano! As emoções podem ser reprimidas, elaboradas, metaforizadas pela mente, induzidas em erro portanto. As intuições não! Estas são puras, verdadeiras, porque não há tempo para o cérebro as filtrar, domar, manusear a seu bel-prazer.
Endrominamo-nos, trapaceamo-nos a nós e aos outros todos os dias, em grandes coisas, em pequenas coisas, por coisas mínimas, por coisas graúdas.
 
O endrominador é um artista!
Um artista multifacetado, amado, agraciado por um grande punhado de pessoas. Porque da realidade todos nós fugimos, porque da dor e do grande desafio não há pernas que nos levem até ela/e, porque é complicado, desmotivante e muito duro conviver com a realidade. Optamos pela endromínia para viver o que chamamos "a felicidade" sem contudo nos enganarmos mas andando enganados, sem contudo nos intrujarmos mas aceitando ser intrujões da vida/pela vida.
 
Só buscamos a felicidade afinal... se ela dura uma hora, endrominamo-nos para que ela dure um dia, se ela dura um dia, intrujamo-nos para que ela dure uma semana!!!
 
Será este o verbo da vida?!?
 
Boas escritas!
(excepcionalmente aguardamos os vossos textos até dia 25 de Março)


 
[Popular]  Enganar, intrujar, aldrabar; trapacear, mentir...

março 03, 2012

Volitar

"Volitar"?!!! Já não basta o acordo ortográfico nos tirar letras e acentos de algumas palavras, será que noutras ainda acrescenta e agora é assim que se escreve "Voltar"?
Ou isso, ou enganaram-se na tecla e não queriam dizer "Volitar" mas sim "Vomitar" e com essa palavras sim, seria muito mais fácil escrever todo um rol de teorias. Começando pelo vómito da mais tenra idade (mais conhecido por bolsar) passando pela adolescência onde se incluem as inúmeras Queima das fitas e nas quais não falta a presença de tão repugnante acto, perdão, de tão repugnante ato, e acabando por uma frase muito mais bonita que é a gravidez mas que infelizmente vem muitas vezes acompanhada por essa capacidade que o nosso corpo tem de expelir alimentos indesejáveis aos nossos sensíveis estômagos ou será estómagos(?).
Mas, precisamente por ser um assunto que muita má disposição poderia criar aos ilustres leitores deste blog e seguidores do facebook, penso que não devia ser esse o objetivo das nossas queridas educadoras. Sendo assim voltemos ao "Volitar" e como nunca somos velhos demais para aprender, fui ao dicionário e eis que "Volitar" significa: Voejar; esvoaçar.

"Infantário de Crestins ... a educar desde os 0 aos 99 anos.com"

Catarina Braga (mãe da Matilde, sala dos 2 anos)

Volitar

Volitar é o mesmo que voar. Será que o homem voa?
Voa. Nos seus sonhos, na sua imaginação, na sua interminável vontade de atingir patamares altaneiros.

Há muitos anos, em sonhos, eu volito! isso para mim é tão simples como abrir os olhos e acreditar que sou capaz...
Mas para muitas pessoas, voar ou volitar nos sonhos, é quase impossível...
Muitas vezes eu sonho, ensino as outras pessoas como se deve fazer, e o primeiro passo é ter alegria no coração, total entrega e confiança na sua luz. E uma boa dose de fé!
Acredito que muita gente não consegue volitar porque não se sabe entregar, são mais rígida, desconfiadas. Confiar na luz é ter fé em Deus e em nós mesmos (pode parecer uma coisa estranha, entregar-se sem ao menos confiar que pode não dar certo!) também... será que confiamos na nossa luz interna? Ou será que muitos ainda precisam de ver para crer? (como há 2000 anos precisou um apóstolo de Jesus Cristo?)
Afinal, queridos amigos, se voçês quiserem volitar nos vossos sonhos, comecem com os bons pensamentos, com as boas palavras e as boas acções.Não tenham medo de "volitar nos vossos sonhos". Mas sim de não tentar realizá-los!

(Mãe do daniel, sala de 1 ano)

Volitar

Volitar. Verbo intransitivo: esvoaçar

A influência é terrivel. Como no outro dia, sentadinho no sofá, como qualquer homem casado que se preze e que almeja o estilo de vida do Homer Simpson (...isto é, depois de fazer o jantar e ter aspirado a casa...), admirei o filme “máquina zero” de Sam mendes, e relembrando outro clássico do cinema “nascido para matar”, de Stanley Kubrick, ambos os filmes retratos do serviço militar no seu pleno esplendor, lembrei-me a falta de melhor, relatar alguns episódios da minha prolongada vida militar em que me sujeitei a esta máquina oleada de fazer máquinas de guerra que é o exército português....Comparando com o meu pai, ele esteve na Angola 18 meses e trouxe uma tatuagem e belas e exóticas fotos a preto e branco, eu estive quatro loooongos meses e apenas trouxe uma micose nos pés... Os tempos mudam...volitemos pois nessa mem

                     Episódio 1. Destino.

Isto é um clássico. Naquele outro ritual da nossa juventude a que chamam inspecção militar onde após uma bateria de exames, te caribam como apto ou não para  circular na “estrada da tropa”, mais ou menos como fazemos aos nossos carros, há sempre a pergunta:” para qual a zona onde gostarias de fazer serviço militar?”...Pois, era certo e sabido que ias parar a mais de 200 kms do local escolhido. Gosto de imaginar que para este serviço que era escolher o rumo dos denominados mancebos, tiveram de arranjar o gajo mais embirrento do país, pior ainda do que o ministro Gaspar. Um soldado com laivos de sadismo, dotado de um riso maquiavélico tipo Arqui-inimigo do Batman, Joker, enquanto nas suas mãos passava o nosso destino... E claro, tinha de incluir no menu a obrigatoriedade de ter de andar de autocarro ou de comboio  a noite toda de domingo...a mim calhou-me pois no edital uma temporada em Lisboa, regimento de lanceiros para ser “cabeça de giz”, alcunha dada á policia do exército pelos seus capacetes brancos com a descrição “P.E”. Isto promete...

                          Episódio 2. Camaradagem.

Cerca de trinta jovens formam um pelotão. Todos com o mesmo corte de cabelo, o que não pode ser coincidência e a quem dão as mesmas roupas, as mesmas botas, o mesmo tipo de cacifo e de beliche. Vimos todos de várias zonas do País, desde o Minho ao Algarve, desde o grandalhão abrutalhado emigrante da França, ao desengonçado benfiquista até ao franzino metaleiro a quem o corte da gadelha lhe retirou a pinta  toda. Todos diferentes, todos iguais.

Na tropa, não há colegas. Chamar isso a alguem é insultuoso, é a mesma coisa que prostituta. Na Tropa somos todos camaradas. O que dá até um certo ideal de comunismo, pelo facto de fardarmos todos iguais...mas depressa essa idealogia passa quando te gamam o cobertor no primeiro dia...

Depressa entramos no espírito da coisa. Estranha-se mas lentamente entranha-se o funcionamento da instituição militar: uma hierarquia rígida em que fazes constantemente continência, uma pirámide em que, quanto mais  sobes, menos fazes. O soldado, sendo a base e o elo mais fraco da cadeia, ironicamente põe tudo a funcionar. Mas como cerca de 93% de quem está a ler isto se deve rever na empresa onde trabalha, seguimos em frente.

Tudo funciona por ordens e consequentemente por castigos. E se um falha, todos cumpram a punição. A moeda em uso chama-se flexão de braço e é usada recorrentemente. Um exemplo: o Furiel grita ou melhor cospe a ordem de que temos dois minutos para nos fardarmos, mas avisam-te já que um destes minutos já se escoou. E enquanto corremos como desalmados, há sempre o molengão que que gosta de se vestir com calma, que aprecie com deleite os pormenores da vida enquanto vai calçando a bela da bota. Enquanto isto, os restantes 29 solados esperam em solidariedade, numa posição confortavel, na horizontal, braços esticados, preparados para cumprir mais uma dose de flexões.

No fim do dia, estafados de tantos castigos, convivemos pacificamente na camarata. Dá-se graxa ás botas, que tem de ter aquele brilho que só vemos nos anúncios publicitários da Colgate, conversamos e há quem quer ouvir no seu  leitor de k7s , os riffs poderosos de guitarra dos Nirvana... De repente, vemos o mesmo leitor a volitar literalmente, despedaçando-se em mil bocados numa parede. O sossego volta, e estranhamente, não há testemunhas... Afinal, o Franzino metaleiro tambem nao teve pressa em se fardar...

Episódio 3. Contactos.

Eu ainda sou do tempo, como se dizia num famoso anúncio publicitário, em que, para se fazer uma chamada, ainda tinhamos que ir á cabine telefónica. Séculos passados, dirão uns. Onde é que deixavas a armadura de cavaleiro e a espada, dirão outros. Não, já estavamos em 1995...O tempo é que tem pressa  e tambem volita sem pedir licença. Os telemoveis ainda eram uns grandes e caros “tijolos”, fora do acesso do comum mortal.. .

O facto é que eram assegurados uns largos minutos na fila, a aguardar a vez para a chamada mágica que destrancasse a porta da saudade. Enquanto se esperava, ouvia-se as conversas dos outros, desde a noticia do tio Alberto que não  defecava há mais de uma semana, porque tinha limpo o rabo com sacos de cimento, ou então as eternas juras de amor para a donzela, na província, esperando secretamente de que os amigos da onça não passasem ao contra-ataque...

  E ai de quem se atrevesse a passar à frente da fila!... Nem que fosse o proprio Clark Kent, com a desculpa de “ ai e tal, tenho de vestir a roupa de super-man para salvar o mundo ...” se safava. Levava já para tabaco. Rigor e ordem. Mais nada.

                           Episódio  4. Os bosses.

As chefias. Lembro-me perfeitamente de dois deles. Ficaram na retina, por diversos motivos:

O Alferes. Só convivemos com ele uma semana. Um tipo normal, se tomarmos em conta o estilo dito militar. Sacudia as responsablidades todas para cima do furiel no que se tratava da instrução aos soldados, desde o tiro com a metralhadora g3, que pela data de fabrico possivelmente foi usada pelo meu avô, ou pelo ensinamento do perigo das granadas, o que levava a que sempre que fosse arremessada uma mera pinha para o meio de pessoal, mesmo na pausa para o cigarrinho, tivessemos que nos atirar para o chão duro, cheio de pedras, de certeza colocadas estrategicamente no local pelo exército com a intenção clara de nos magoar.

Parecia estar sempre constipado, e tinha a mania de apreender sem retorno possivel o material que deixavamos esquecidos em cima das camas imaculadas. Porque é que que me lembro dele, então?...É que afinal, aquilo que considerava ser  gripe era afinal uma grande dependência de uma certa substância que faz rir, que o levava a pedir constemente dinheiro emprestado  para pagar o seu vício. A ironia é que que a chamada “Casa da Rata” nome dado á casa de reclusão dos militares, ficava exactamente a frente da camarata...Durante dois dias, lá estava o passarão, ex-mandão, agora caído em desgraça e a quem já era possivel entabular uma conversa, nem  que fosse apenas para nos cravar um cigarrinho..Naquela gaiola, já nao conseguia volitar.

O Tenente. Dele lembro-me por um episódio marcante. Eram  frequentes  os grandiosos desfiles na Parada, uma amostra de força, organização e na minha opinião da vaidade dos comandantes, no despique do  prémio “o meu pelotão é melhor do que o meu”.Treinavamos a marcha em pelotão todos os dias, fizesse chuva ou sol, para que, qual autómatos afinadinhos, fizessemos figura nesses dias.

Como é que ele era? Inacessível. De grande porte, sempre impecável na sua farda e com uma voz tenebrosa a fazer lembrar um dia de trovoada, com uma cara austera, onde era raro ver nela algo que não fosse desdem por toda e qualquer classe militar inferior. Estranhamente e contrastando com este quadro, uma maneira esquisita de andar, que ficava algures entre uma libélula e uma gazela bêbada...

Nesse dia em particular, tudo corria mal para o desengonçado benfiquista, péssimo atleta na arte da marcha. Todo ele parecia uma marioneta desconchavada e dava a sensação  ser ele o único soldado que estava com o passo certo. Nem perante a iminente passagem em frente ao Tenente, a coisa melhorou. Sob o olhar fuzilante do mesmo e suando ás estopinhas, as pernas teimavam em não encontrar o ritmo certo...De repente, recordo-me perfeitamente pois ficou marcado na minha memória em slow-motion, foi ver o Tenente, não sustendo mais a impaciência, vermelho como um pimento assado, a saltar da tribuna e correndo, melhor dito, volitando como uma borboleta, para depois num salto sobre-humano, tal como um jogador da NBA, cair com um grande sopapo em cima do pobre soldado. Abanou os alicerces com o calduço que levou, mas milagre dos milagres, todo ele se transformou em operacionalidade e cadência. Até nós melhoramos o empenho, não viesse de cima outro “incentivo”...

                          Episódio 5. O cadeado

O jantar de pelotão foi demoníaco. A culpa é de juntar na mesma mesa 30 jovens sedentes de alcool e que, apesar dos avisos de que os excessos  iriam ser pagos em “marcores” (correr fardados e de metralhadora na mão por Belém e arredores e depois terminar a rastejar na pista de combate..) e G.A.M. (ginástica até á morte...), nem assim os demoveu. Foi duro. Muito duro. Ficamos  tao bêbados que até estávamos orgulhosos de pertencer ao Exêrcito. Muito mau, mesmo...

Quando chegamos ao quartel, tentando fazer o minimo de zigzages possiveis para não dar nas vistas, o grandalhão abrutalhado emigrante da França, ao chegar ao seu cacifo, começou a gritar, trôpego, de que lhe tinham mudado o cadeado, pois a chave nao servia. Imediatamente e para evitar que ele continuasse o chorilho de palavrões, lá fomos buscar o pé de cabra, utilizada para quem se esquecia de trazer as chaves..Com um golpe, seco, o cadeado ficou desfeito e quando todos se dirigiam para a cama, felizes por ter ajudado um camarada, o grandalhão abrutalhado voltou á carga para avisar que afinal, tinha-se era enganado de cacifo!!!... Mal menor: o cacifo era do  franzino metaleiro...Lá fechamos o cacifo e colocamos o cadeado de modo a que, se ninguem lhe tocasse, parecesse estar devidamente fechado.O grandalhão abrutalhado, esse, já branco como cal, titubeando, apenas disse qualquer coisa parecida com ”tenho qle ir volitar...”, talvez antecipando com alguma arte advinhatória, por alguns anos o texto que iria fazer sobre esta palavra. O que ele acabou mesmo por fazer, foi chamar o gregório e passar a noite toda com a cabeça junto á sanita...

                          Episódio  6. Despedida.

Muito haveria ainda por dizer,

Jurei bandeira. Sobre o sol abrasador, numa Parada a ferver, e com a multidão constituida pelas orgulhosas familias, senti-me como o gato das saquetas Wiskas, salve seja a publicidade...repeti o discurso sobre prometer solenemente defender o país, blá, blá, blá...só pensava era numa mini fresquinha... simbolizado pela bandeira, blá, blá, blá...uma mini geladinha...

A semana de campo foi tambem divertida. Grandes caminhadas, um capacete com ramos  a enfeitar, numa tentativa vã de nos camuflar no meio ambiente mas que nos fazia parecer veados alucinados, sessões de campismo gratis e umas belas rações de combate que iriam fazer inveja ao Nuno Markl, o tipo da caderneta de cromos que adora as coisas dos anos 80. A ração de combate, para ele, ia ser um tesouro, tal a quantidades de alimentos que julgavamos extintas e que afinal estavam ao alcance de qualquer tropa...

Ao fim de quatro intensos meses, finalmente o fantástico momento denominado espólio, em que todo o material é novamente devolvida á procedência. E lá tem de um soldado procurar em cama alheia o cobertor que falta...a tropa manda desenrascar, frase feita mas com o seu quê de verdade....o Ritual manda que gritemos a plenos pulmões a palavra “Espólio”, palavra tão bonita naquele dia. Uma despedida em que só ficam aqueles que tiveram a infeliz ideia de prolongar o contrato com a instituição...é vê-los sentados nos beliches, com semblante acabrunhado e cara quase chorosa ( pois militar não chora.) de quem acabou de cometer um grande erro...  

Já sem a odiada farda, de roupa civil, um último olhar para todo o quartel, onde sentimos ter feito parte de algo maior, uma sensação de pertença e até de um certo orgulho até agora reprimido. Agora era a vez de dar ás asas, voltar aos nossos mundos, de preferência com penteados mais estilosos e VOLITAR, pois então.

...Ah, e lembram-se de no início deste texto ter falado sobre a máquina de guerra que o exército me iria tornar. Pois, olha, só me senti essa máquina quando no bar do quartel, nesse local onde se bebe umas bojecas por um preço simbólico e se relatam os feitos heroícos (por exemplo, do soldado anónimo que “arreou o calhau” em cima do brasão do quartel, que fica no meio da Parada e que é proibido pisar...), fui encontar  o videojogo 1945. À custa de alguma moedas de vinte escudos, posso-me  gabar ter conseguido entrar no panteão dos 10 melhores jogadores daquele dia, ao comando de um avião, exterminando hordas de inimigos duros de roer. Que máquina de guerra...

                        Fim.

Fernando, pai de Filipe Amorim, Sala dos 4 anos e único sobrevivente do holocausto “nao consigo escrever um texto acerca de uma palavra dificil”...

Ps: sete vezes que utilizei o verbo volitar em várias formas. Considero pois a missão concluida.

janeiro 31, 2012

METAMORFOSEAR

A primeira imagem que me passa pela cabeça? Assim de repente, o protector do monitor do meu computador, em que depois de um minuto de (eterna..) espera, fica todo preto, aparecendo no meio da escuridão, uma modelo em trajes menores, que de forma abnegada e muito profissional, se dedica a limpar o vidro do ecran com uma esponja, água e sabão, pondo assim a sua saúde em risco, devido aos salpicos que constantemente lhe molham o wonderbra... Ah, a primeira imagem era acerca do verbo metamorfosear?... Neste caso, assim de repente, um bichinho da seda, muito feiinho, que se tiver a sorte de não levar com uma bota nº 42 nas costas, ou não servir de aperitivo a um passarinho, se irá transformar depois de um período encasulado, numa belíssima e colorida borboleta a esvoaçar pelos jardins...( isto é, se não for apanhada por uma rede do tipo da bota nº 42, ou se não servir de petisco a outra ave com apetite para outro tipo de aperitivos...)

Depois de uma aturada pesquisa sobre a temática ( bendita internet..) e sabendo que qualquer crónica que se preze, deve ter alguma informação útil, cá vai: não, não me vou referir a ter receio de qualquer bota nº 42, sobretudo se for daquele tipo de pessoa que acorda de manhã com cara de insecto, de olhos esbugalhados. Vou antes falar de um livro, que faz parte da literatura universal. Um conto com o sugestivo título “ A metamorfose”. Escrita por um tipo de nacionalidade checa, chamado Franz Kafka, é sobre a história de um homenzinho, caixeiro viajante que, um dia, acorda na sua cama transformado num insecto. Realmente, um cenário fora do vulgar, tal como os seus contos, e que originou o adjectivo “kafkiano”, quando o relato de um acontecimento é cheio de peripécias, fora do comum, anormal, presa pelas engrenagens da burocracia ( ou seja, a ser aplicado a qualquer acção dos nossos políticos...),. Numa alegoria á sua própria vida familiar, o pobre caixeiro viajante, outrora parasitário, pois trabalhava para o sustento de toda a familia, agora transformado num repelente insecto, parasita e dependente, é aos poucos abandonado pela famelga que, como tem de dar ao cabedal e fazer-se pela vida, ja nao precisa do desgraçado.

Confesso que não li o conto.
Fica a aguardar a sua vez, entre o livro do tio Patinhas e a “blitz” de Dezembro, naquele pequeno local sagrado da casa, onde o comum dos mortais com pouco tempo dedica para a leitura. Mas desde já aviso: o livro não tem desenhos, o que é desmotivador. Só letras e letras, que juntas formam palavras, e que, com a pontuação correcta, nos levam a frases. Nem um desenho sequer de um super heroi a desancar bandidos ou uma foto de uma “nova-figura-jet-set-da-casa-dos segredos-amanhã-já nao-sei-o-teu-nome”. Um erro de marketing, na minha opinião.

Uma ideia se me ocorre: e se eu fizesse um conto mais ou menos parecido, com algumas nuances para não ser acusado de plágio, na esperança de que, no futuro as proximas gerações utilizem o termo “amorimiano” para o relato de um acontecimento fantástico e heroíco? ..Muito bem pensado, sim senhor.

O argumento seria este: em vez de passarmos pela denominada idade da parvalheira em que fazemos coisas como  passear com as hormonas aos saltos e as borbulhas em constantes erupções  ou espancar outros adolescentes para  de seguida pôr o video no facebook, deveriamos  passar por uma “metamorfose” de alguns dias, como o bicho da seda, para que depois dessa fase, eclodissemos em belos exemplares adultos, sem traumas daquela complicada fase. Só que, pensando bem, o meu conto esbarra-se ou melhor espatifa-se de cara numa barreira impossivel de quebrar: a realidade portuguesa. Senão vejamos:
- Dentro do casulo, terei cobertura tdt ou estarei em zona sombra? Tenho de adquirir descodificador?
-   E com a invasão dos chineses, tenho garantias de o casulo ser de seda ou  será feita de poliamida ou plasticodida, made in china?
- Se o casulo for feito em dia de feriado, vai para o banco de horas ou é  considerado trabalho suplementar?
  E qual o imposto que o governo vai inventar para estes casos: o IMC? (Imposto sobre Metomorfose em Casulo). Com obrigação do PNB, com certeza. (Pagas e Não Bufas...)
Encontrei mais 343 condicionantes para o insucesso desse conto. A burocracia portuguesa estragaria qualquer processo desse genero.
Resta-me apenas reflectir em fazer eu próprio uma metamorfose baixinha, discreta, lentamente para que não desconfiem. E aconselhar a todos para que façam o mesmo. Uma metamorfose para um mundo melhor. Eu sei que é economia paralela, mas o que querem? É por um bom motivo....
Fim
PS:  na feitura desta crónica, nenhum bichinho da seda foi maltratado. E qualquer semelhança com a referida  bota nº 42 e a realidade é pura coincidência. Isto é ficção...senão era suspeito...

                                                           Fernando amorim, pai de filipe amorim, 4 anos

janeiro 09, 2012

METAMORFOSEAR

v.t. Mudar a natureza ou a individualidade;
Mudar o exterior ou o carácter de;
Transformar,converter, transmudar, transmutar.

Talvez para atender a alguns pedidos este mês um verbo fácil (ou parece!) a "digerir", "criar", "ensaiar": Metamorfosear.
Quando ouvimos, lemos, esta palavra imediatamente o cérebro faz uma ligação à tenra e frágil crisálida que se transforma, transmuta, em borboleta. A mudança do seu exterior é muito mais do que apenas uma muda de pele, a sua fragilidade e o ser constante presa para outros animais esvai-se e uma força se ergue advinda das suas asas. Quem era presa transforma-se em predador, quem era estática fisicamente ganha amplitude e esprai-se nos ares. É um engano atribuir-se a algo que parece inerte, a condição de subjugado, indiferente, apático. A metamorfose dá-se quando menos alguém a espera! E 2012... é ano para qualquer um de nós se metamorfosear! ( e deixo-vos com este pensamento ;)


Até 15 de Janeiro, deixe chegar até nós a sua visão!

janeiro 03, 2012

ALMEJAR

Sem mais delongas.... o feliz vencedor!

"Assim de repente, a palavra "Almejar" remete-me para um daqueles flashes que me percorre o cérebro, iluminando-o com teorias mirabolantes, que certamente poderiam ser resolvidas com a dose certa de medicação e possivelmente com umas quantas sessões de divã, a relatar cenas da infância...
Tudo ficara decidido numa reunião ultra-super-hyper-mega-secreta doa pais do jardim de infância de Crestins, feita à revelia das educadoras. O tema principal era inevitavelmente apurar responsabilidades na atribuição das palavras difíceis para o blog.
- A palavra "supuser" até me dá arrepios!- gritava um pai exaltado - Acordo de noite, a suar e a gritar pela minha mãe, só de pensar nesta palavra!... o que vale é que ela está no quarto ao lado!
Olhares cépticos entre os pais. Outro pai usa do seu direito à palavra:
- E eu com a palavra "Consagrar"!!! pensava eu que era mais uma marca de sardinhas em tomate e afinal é um verbo?!
- Ao menos que fosse a palavra "Alvejar"!... retaliou um pai com um olhar alucinado, mas só por ser jogador exímio de Counter-strike, um fanático dos videojogos com preferências por "headshots"... pelo sim , pelo não, abriu-se um espaço à volta do dito pai.
- Ou então que fosse "Algemar"! - Outra opinião de um pai com uma imaginação fértil em determinadas fantasias contemplando veludo e mais que não posso agora referir. Nova troca de olhares cépticos...
O alvo, depois de muita discussão, ficou assim definido: o DICIONÁRIO em cima da mesa da biblioteca da escola! Ele era o culpado e teria de desaparecer para que palavras mais corriqueiras como correr, saltar e comer fizessem parte do reportório das nossas educadoras.
Na fase da escolha do voluntário para a denominada operação "Livro a abater", senti um empurrão por parte de um sacana que me atirou para a frente das fileiras: estava escolhido o seu executante.

Três da madrugada. Equipado a rigor, todo de negro com um capacete do cicloturismo, com lanternas coladas com fita-cola e um leitor de MP3 a passar a banda sonora da Missão Impossível, entro na escola.
1- Salto o portão;
2- Toco à campainha;
3- Entro por uma janela que ficou aberta;
4- Procuro na sala o botão que abra a porta;
5- Volto a sair pela janela;
6- Entro pela porta e ainda digo "obrigado" ao intercomunicador, boa educação acima de tudo...

Quando chego à biblioteca, e fruto de muito cinema, idealizo um esquema complexo, para evitar deixar impressões digitais, que consiste num sistema de cordas, roldanas e ventosas para poder descer na vertical, como uma aranha e assim apanhar o dicionário. Tal e qual como nos filmes de espionagem. E para evitar que a gotinha de suro estrague o meu plano (é um cliché nessas fitas...) besunto-me com um stick anti-transpirante...
Seis da madrugada. Mas isto é nos filmes, a realidade é bem diferente. Neste momento, enquanto espero a abertura da escola e estou aqui enrolado em cordas, embrulhado em imensos nós, preso como um chouriço na fase do fumeiro amaldiçoo-me por ver tantos filmes de espiões. O dicionário, esse está a um palmo do meu nariz. Quase o ouço a rir não fosse a música da Missão Impossível que continua a passar em modo repeat. Este objectivo nunca esteve tão perto... e tão longe de...

                                                                                                                A L M E J A R*

* Almejar: Desejar veementemente; ansiar; ambicionar.

Fernando Amorim, pai de Filipe Amorim (4 anos)