junho 25, 2012

FARREAR

                                   Farrear ou a vã  gloria  de fazer (muito)arroz doce.


PLANO A: colocar um aviso em que informo que, devido ao facto de haver a feira medevial em  Moreira da Maia e que, cavalgando no nosso garboso carro, iremos a esta nobre cruzada, na heróica luta contra a sangria e o pão com chouriço;
 Por se ter iniciado a feira do livro no Porto, e adoramos saltar de banca em banca, ganhando espaço com os cotovelos ( no boxe é proibido mas isto não é desporto...) na busca da grande pechincha que satisfaça cada membro da família sem ultrapassar o budget definido;
 Por ser o fim de semana de Serralves, grande sensação cultural e de recreio da cidade, mesmo tendo como eterno handicap as tentativas goradas de estacionar o carro nas ruas circundantes, sem que apareça o raio do arrumador com o jornal enrolado na mão, a comandar as manobras, solicitando amavelmente a moeda, sem nenhuma contra partida, embora saibamos não ser saudável  para o nosso querido veículo dizer “não”;
  Por querer experimentar a mesa de piquenique desdobrável que adquiri no Jumbo, feita de muito plástico e pouco metal,  que  geme de aflição mas que aguenta estoicamente o nosso peso, depois de todos acomodados nos seus ridículos bancos...
Ou seja, por ter muito onde farrear,  fica o leitor  encarregado de fazer o TPC, que é verificar por si mesmo o significado da palavra. Levante o rabo do sofá e aproveite as minhas dicas...ponto final. Texto concluído.

PLANO  B: relatar  como naquela segunda feira, depois de trazer da nossa bela terra, Paredes de Coura, uma garrafa de litro e meio de leite da vaca, vindo directamente do produtor, me passou pela cabeça  que poderia ser um grande “chef” de cozinha como o Henrique Sá Pessoa e decidi que iria fazer um belo de um arroz doce, surpreendendo assim a família com a minha versatilidade na arte da  culinária, conquistando admiração pelo paladar. 
Infelizmente, não tenho daqueles aventais de cozinha com a estampagem de um  corpo bronzeado e musculado, e que faria toda a diferença se cozinhar fosse apenas estilo e não técnica.  Também verifiquei no google e não existe á venda o livro “Arroz doce para Totós “, o que me parece uma falha imperdoável. Dois contratempos iniciais que não fizeram esmorecer a minha vontade de brilhar. Lá encontrei finalmente  uma receita mal amanhada, numa gaveta da cozinha, escrita com gatafunhos estilo médico de família, mas sem a descrição das  quantidades, o que achei não ser grave pois confio totalmente no meu paladar para acertar medidas. Coloquei o leite na panela para ferver, com a  casquinha de limão e o pau de canela a flutuar. Ocasionalmente, quando estes se juntavam, dava a ilusão de uma jangada com uma vela quase a afundar. Mais uma tentativa frustada de Robinson Crusoe sair da ilha, fantasiei eu, as tempestades de leite são terríveis para este naufrago.. .
Quando chegou a vez do arroz, uma leve dúvida se levantou. Que quantidade deitar? Depois de abrir o saco,  abanei os ombros  e despejei o conteúdo todo. É nessa parte que ignorantes como eu consideram assinalável o meu poder decisório. Os entendidos da cozinha, neste momento arrepiam-se e pressentem que  algo vai correr mal,  tal a quantidade insana de arroz que acabei de deitar.
Logo verifiquei o lapso cometido. Para além de estar sempre a acrescentar mais e mais leite, a panela começou a tornar-se pequena. Tal como as Matrioskas, bonecas tradicionais de madeira russas, compostas por várias figuras que vão da mais pequena á maior, também eu fiz mais ou menos igual, só que com as panelas, mudando diversas vezes, conforme o crescimento do seu conteúdo.
Não sei se conhecem a banda desenhada do “Calvin e Hobbes”, que o jornal Público  publicava na última pagina, há uns anos. Era acerca das aventuras de um miúdo rico em imaginação e do seu tigre de peluche. Pois este rapaz, quando era obrigado a comer as refeições que a mãe lhe punha em frente, fantasiava que  a comida ganhava vida, transformando-se em monstros, com quem lutava com os talheres. Pois EU posso dizer que me senti um Calvin. Gerei mesmo um monstro. Cada vez maior, implacável, que teimava em transbordar para cima do fogão e que era insaciável, pois consumia quantidades cada vez maiores de leite.
Finalmente, depois de meia hora de combate intenso com a minha colher de pau, de suor e desespero, de preces para que parasse de se agigantar, o monstro lá se acalmou, dentro da terceira panela, repousando já com umas quantas colheres de açúcar. O saldo final da batalha foi: cerca de quatro litros de leite gastos,  três enormes travessas de arroz doce quente e enfeitado com canela, que me encheram a mesa, e ainda um fogão imundo e uma bacia cheia de panelas á espera de serem lavadas. Ainda pensei em gastar algum  arroz para tapar algumas fissuras das paredes de casa ou nos buracos que deixamos quando se pendura quadros. Também me lembrei  de moldar uma réplica do Cristiano Ronaldo, em tamanho real, feito de arroz doce, o que poderia  ser o embrião do futuro “museu de bonecos de arroz doce de Fernando Amorim”. Acho que até tinha material suficiente para as namoradas todas dele. E não são poucas...
Enfim, e para conclusão da história: já dizia a minha a minha tia Dulcineia, que para se farrear, é preciso a barriga cheia. Eu nem tenho uma tia com este nome, mas nós, encarregados de educação, tornamo-nos em nome dos filhos peritos nos desenhos animados e lembrei-me do jardineiro da “ilha das Cores”, que tinha sempre um ensinamento vindo de um familiar  e que rimava... Para além de dar um ar de sabedoria popular que fica sempre bem.
 Ponto final. Texto concluído. A tempo de ir jantar. A ementa de hoje é frango assado com...arroz doce. E escuso de referir qual vai ser a sobremesa pela 15ª vez seguida.... e não esquecer de avisar a família que não convém usar a mesa de piquenique nos próximos seis meses, para segurança dos seus ( futuros obesos..) utilizadores...


PLANO C: incluir o plano A e B. Está decidido, definitivamente, este plano é o melhor.



                                                           Fernando, pai de Filipe Amorim, 4 anos

maio 03, 2012

DEALBAR

Verbo Dealbar: v.t. (do latim dealbãne "branquear")
1-tornar branco
2-em sentido figurado:purificar

Abril é o mês da Primavera e também mês do advento, o prenúncio da vinda, o dealbar da esperança.
A Primavera dá-nos esperança, ao vermos o florescer da natureza, e damos boas vindas a tempos mais auspiciosos.
Nestes tempos brancos bendizemos glórias, escutamos cânticos de louvor e enfrentamos um grande compromisso de honra, de purificação perante a vida. Deixamos para trás o tempo invernoso, as nuvens negras que pairavam em cima de nós e deixamo-nos guiar em passos pequenos mas certos, em direção a mais uma estação pascal. Isso mesmo, Abril, mês de Páscoa, que se quer uma etapa íntima, privada e secreta, mais do que uma época do ano em que há mais consumo, festa e férias.
Uma época que nos instigue a vestir o branco em sinal de pureza, reafirmando com segurança férrea a nossa fé, dealbamo-nos perante o negro do passado, as cinzas do presente e sem preocu~pações dignas de nota, sentamo-nos e olhamos de frente para uma nova aurora. 
É hora! É hora de dealbar os nossos crimes, branquear sacrifícios e brilhar...

Cátia (mãe de Daniel Rubim- sala de 1 ano)

DEALBAR

A palavra dealbar remete-me inevitavelmente para o último ano de faculdade.
Nessa altura, eu fazia parte do Núcleo de Divulgação Científica (NDC), uma associação de alunos de Engenharia Química da FEUP que tinha como principal objectivo divulgar o que de melhor se fazia em termos científicos na instituição fazendo chegar a ciência a grupos que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a ela.
Já não me recordo exactamente como, foi proposto ao NDC organizar as 2as Jornadas de Engenharia Química em parceria com o Colégio de Engenharia Química da Ordem dos Engenheiros subordinadas ao tema: “O engenheiro Químico no dealbar do novo século”. Acho que foi esta a primeira vez que tive contacto com a palavra dealbar.
Coube-me a árdua tarefa de dissertar sobre o tema na presença de tão ilustres convidados como o Eng. Belmiro de Azevedo, Eng. Ferreira de Oliveira, Eng. Ramôa Ribeiro, entre outros menos conhecidos mas não menos prestigiados.
Lembro-me que a minha intervenção foi curta mas marcante. Reflecti sobre os desafios que o novo século nos reservava enquanto recém-licenciados. Os receios eram alguns pois o mercado de trabalho apresentava-se difícil e receoso. Hoje, à distância de quase 10 anos, vejo que os desafios que enfrentávamos eram bem fáceis comparados com os que os recém-licenciados (ou recém-mestres) de hoje, enfrentam independentemente da formação que possuam.
Do grupo de amigos que ficou depois do curso, todos nós estamos bem. Uns melhor do que outros mas todos nos conseguimos encaixar no mercado de trabalho, ter empregos não-precários e com salários razoáveis.
Os licenciados que hoje dealbam, certamente, terão um caminho mais sinuoso e díficil de percorrer do que nós tivemos. É evidente que há sempre excepções mas o futuro apresenta-se hoje, muito mais sombrio do que há uma década atrás. E o grave, é que para nós também se apresentou mais díficil do que na década anterior.
Resta-nos esperar que os ciclos típicos das economias de mercado se cumpram e que a crise chegue ao fim permitindo o dealbar de uma nova era de prosperidade e qualidade de vida.

Carla Durão
(Mãe de Mafalda Alvarim – 4 anos)

DEALBAR

Dealbar
Ao longo da vida, todos nós encontramos no nosso percurso académico, profissional ou mesmo nos tempos livres, os denominados “cromos”. Não aqueles que vão aos ídolos para serem cravejados pela metralhadora de insultos chamada Manuel Moura dos Santos, mas sim estes espécimes únicos no mundo, que julgam saber tudo, quando é notório que não sabem nada e que, pelo seu comportamento altivo e de uma aparente superioridade, nos provocam uma grande impressão. Ao pé de um destes artistas, sinto uma vontade enorme de recorrer à violencia, mas como não sou apologista, apenas me vem o desejo de que o seu nariz venha bater no meu punho fechado, com muita força...
Tive por exemplo um colega que gostava de mostrar que era inteligente. Uma mania que até poderia ser banal, não fosse o facto desse indivíduo recorrer sistematicamente a uma estratégia que passava por ir à biblioteca  requisitar livros, tais como o “manifesto  do partido comunista”, de Engels e Marx ou então “A Náusea”, de Jean Paul Sartre, somente para decorar algumas passagens mais rebuscadas e assim introduzi-las em qualquer contexto de uma conversa.  Se por acaso eu falo no tempo, lá vai ele referir que a existência é gratuita e ilógica e essa constatação por cada um de nós é algo terrível e fora de aceitabilidade. Se eu toco nalgum assunto referente à política, ele desata logo a descrever que isto é fruto da  burguesia ter rasgado o véu de emoção e da sentimentalidade das relações familiares e reduziu-as a mera relação monetária... Quando ele discursa e consegue encaixar os termos decorados, imagina-se o maior, o Mourinho do Conhecimento, o “el Comandante” das teorias revolucionárias e filosóficas. A realidade é porém outra: a assistência primeira fica de sobrolho franzido, como se estivesse perante um alien vindo de um planeta distante. Depois ainda aguenta uns vinte segundos com a secreta esperança que ele se asfixie num daqueles termos supercomplicados. Finalmente, como não há nada a fazer e ele parece um tgv a alta velocidade, sem paragens e debitando cada vez mais  teorias obscuras e indecifráveis, é vê-los a fazer a chamada retirada estratégica, com várias desculpas, entre as quais “ deixei uma panela ao lume com o refogado” ou “o pai do meu filho nao se está a sentir bem, vou ver o que ele tem...”.
Há técnicas especializadas para lidar com este tipo de  colegas, quando por ventura ou um grande azar, não há possibilidades de fuga. É como se fosse um manual de procedimentos para não enlouquecer, instituído e divulgado por quem já ganhou traquejo e experiência ao lidar com estas pessoas.
Devo reconhecer que, na primeira vez, foi aflitivo. Nao reparei que toda a gente se tinha ido embora, e quando ia fazer marcha-ré, uma parede se intrepôs...o tipo cravou os olhos na minha pessoa e iniciou logo uma dissertação acerca da história das sociedades, encarada como um longo processo dialético em que as classes oprimidas eram vítimas de relações de produção desiguais, tretas que me puseram logo com suores frios e em pânico. Depois relembrando as dicas dos parceiros veteranos, iniciei o plano de contingência estipulado. Tudo passa por manter o olhar em frente, acenar com a cabeça e  ir repetindo de vez em quando: “... sim... pois...”. Depois é limpar a mente e impedir que todo o lixo que ele está a produzir possa penetrar no nosso cérebro, evitando assim danos irreversíveis. Não esquecer o “... sim... pois...” e está aberto o caminho para a nossa imaginação inventar qualquer coisa para passar o tempo, enquanto observamos um indivíduo a ruminar e a acenar com  as mãos... a minha mente desatou logo a inventar um mundo alternativo...

Neste País, está proibido o uso de vocabulário complicado. Foi implementado um regime totalitário, repressivo e rígido baseado nesta regra de ouro: não às palavras dificeis. O administrador de um blog chamado “Naredeiremergir” foi mesmo detido, por atentado à Nação, por insistir na divulgação de palavras como consagrar, volitar, supuser, almejar...eu próprio quando descrevo estes termos, sujeito-me a ser mais uma vítima da P.I.D.E (Palavras Impossiveis de Dizer e Entender), instrumento impedioso e implacável, constituída por polícias de farda e chapéus cinzentos, estilo Bogard do filme Casablanca, e que têm como missão fazer cumprir a Lei Marcial. Se tenho medo? Negativo. Receio de ser apanhado, com certeza, pois ninguém fica indiferente quando se é levado por estes fascínoras para a cela e se está sujeito à tortura da música... 24 horas a ouvir o “ai se te pego” continuadamente. Quem sobrevive, nunca mais é o mesmo... Mas também não quero ser um carneiro, quero ter direito a expressão livre. Tenho um tasco ao pé de uma estrada pouco movimentada, onde sirvo bebidas à clientela sequiosa, mas é apenas um disfarce, uma camuflagem para uma célula rebelde que acredita no livre acesso ao diccionário. Como cabecilha deste grupo, creio nos ventos de mudança,  no purificar deste sistema político que nos condiciona o poder de escolha, num compromisso com o uso livre das palavras. Por isso encetamos acções clandestinas, distribuimos propaganda anónima com poesia, pintamos versos de Fernando Pessoa nas paredes...
Uma sirene ensombra a noite. Quatro viaturas policiais param em frente ao bar, fazendo levantar uma nuvem de pó negra. Estou a limpar o balcão com um pano, mas tenho um mau pressentimento quando vejo oito fardas cinzentas a entrar decididas. Será que fui traido? Não há pistas deixadas para trás, tudo é feito com o máximo de rigor e sigilo. Um dos tipos, de óculos escuros que o torna ainda menos humano, crava-me com algemas nos pulsos enquanto vai enunciando, com uma voz monorcórdica, o decreto de lei infrigido, respectivas alíneas e lenga- lengas associadas ao procedimento penal. Nem reajo. Sinto-me vazio. Sempre tive como idolos os cantautores e as canções de intervenção, que subliminarmente indicavam revolta, e penso que se calhar, abusei da sorte e a minha mensagem era demasiada óbvia. Para ter a certeza, já no exterior, antes de entrar no veículo, questiono um deles, aquele que me parece menos antipático.
Porquê?
Ele não responde. Apenas aponta para a tabuleta do meu tasco, confirmando e revelando tudo com aquele gesto. As letras garrafais, em neon, denunciam-me:
                                               “DEAL     BAR”     
Pelos menos, eles aprenderam o significado.
Acordei do transe. O tipo continua embalado, mandando perdigotos enquanto se regala, quando fala na concepção dinâmica da realidade e os princípios da dialética, reinterpretando-os à luz de uma visão materialista... Olho para o relógio. Passaram-se 17 segundos. Estou lixado...
                              
 FIM
PS:  se por ventura, existir alguem que não gostou daquilo que escrevi, estou disposto a ouvi-lo com toda a atenção do mundo, pois estou receptivo às criticas: ... sim... pois... sim... pois...


de Fernando Amorim (pai de Filipe Amorim - 4 anos)

abril 09, 2012

DEALBAR

















Dealbar - v. t. (Do latim dealbāre, «branquear»)
1.Tornar branco
2.Em sentido figurado: purificar
 
Abril...
A saborear tempos de Primavera, tempos brancos, tempos mornos... e sentados. 
Preguiçamos dando as boas vindas a tempos mais auspiciosos, mais lânguidos mas no entanto mais resolutos.
Sentados, bendizemos glórias, escutamos cânticos de louvor e enfrentamos mais um compromisso. Um compromisso de honra, de purificação perante a vida.
Deixamos um luto invernoso e guiamo-nos em passos pequenos, mas certos, em direcção a mais uma estação pascal, mais uma etapa íntima, privada, secreta... Dignamo-nos a vestir o branco em sinal de pureza, reafirmamos com segurança férrea a nossa fé, dealbamo-nos perante o negro do passado, os cinzas do presente e sem crucifixos dignos de nota, sentamo-nos e olhamos de frente uma nova aurora. 
É hora! É hora de dealbar os nossos crimes, branquear sacrifícios e luzir.
 
(Até 20 de Abril, envie os seus textos sobre, claro está, o verbo Dealbar!)

abril 02, 2012

Endrominar

Endrominar:

Ora aí está uma palavra que muito significado tem para os portugueses.
Ou porque pertencemos à classe dos endrominados, vulgo honestos, ou somos os que endrominamos, mais conhecidos por "chico esperto".
Existe o chico esperto mais banal, aquele para o qual enganar é um ato do quotidiano, um desporto, um ato quase instintivo, ele:
- estaciona nos lugares de grávidas e deficientes sem qualquer vergonha ou sentimento de culpa;
- passa à frente nas filas de supermercado porque tem mais pressa do que todas as outras pessoas que esperam pacientemente a sua vez;
- avança com o carro no sinal vermelho porque ainda tem uns segundos enquanto os outros não ficam verdes.

Depois temos a classe dos profissionais... e esses acho que todos nós os conhecemos pelo mesmo nome, os políticos!
Esses recebem para fazer dessa arte o seu dia a dia.
Fazem-no tão bem que num estado democrático como o nosso, nós é que os escolhemos para essa árdua tarefa. No fundo eles não nos governam... eles governam-se enquanto lá estão para poderem gozar bem a sua velhice.
Eles dizem-nos que numa altura difícil como a que estamos a passar, todos temos de fazer sacrifícios, inclusive eles, que têm de abdicar de... de... ora bem eles têm que abdicar de ... pois, não me lembro quais são os sacrifícios deles. Mas se eles dizem que se sacrificam eu devo acreditar... ou será que eles me estão a endrominar?!

Bem, no fundo estou a ser injusta porque quem nunca endrominou que lance a 1ª pedra!

Catarina Braga (mãe da Matilde, 2 anos)

Endrominar

Sinceramente, nunca pensei que tal palavra existisse no dicionário. Imaginava-a antes naquele lote de palavras feias, no “gang” do calão e na companhia daqueles termos manhosos de fazer corar uma virgem e que normalmente são utilizadas quando insultamos o árbitro que achamos nós, é descaradamente da equipa contrária, só lhe faltando cair do bolso dos calções o cartão de sócio do clube em questão ou então um molho de notas verdes...Uma palavra do povo, era o que eu pensava que “endrominar” fosse.

Mas não, lá fui verificar no dicionário da Língua portuguesa, da Porto Editora, para ter a certeza e lá se encontra ele, com o estatuto social intocável, na página 57, sensivelmente ao meio, para não dar muito nas vistas e por prezar a discrição. Como vizinhança fui encontrar “endromínia” que pelas semelhanças, deve ser prima por parte da mãe, e que por questões óbvias se escusou a tecer qualquer comentário. Razões de ordem familiar, está visto. O “endurar”, vizinho de baixo e que se encontrava a fazer flexões de braço, para continuar a ficar rijo e forte como o seu irmão mais velho, “endurecer”, também se recusou a falar sobre ele por temer represálias, tendo no entanto referido entre dentes que nunca mais faria negócio com aquela besta, pois chegava bem os “vibroplates”, (o da publicidade do Paulo Futre em que ele conversa com pessoas com graves problemas de sincronização da voz com os lábios, o que faz parecer o anúncio uma novela venezuelana...) e os diversos frascos de baba de caracol que lhe foram impingidos com a promessa de  rejuvenescer 15 anos e ficar com o corpinho de Brad Pitt. O resto foi um chorrilho de palavrões e de insultos, fazendo-me crer que, nas horas vagas, se calhar o “endrominar” seria também árbitro ou fiscal de linha. 

Depois de bater em todas as portas e quando estava prestes a desistir, lá encontrei no fundo da página uma palavra que aceitou falar sobre o incómodo vizinho. Mas não foi fácil obter o seu depoimento: foi necessário negociar a entrevista com determinadas condições. A sua voz teria de ser transfigurada para a voz do Luisão do Benfica que é a voz mais grave que me recordo, e a imagem da sua cara teria de ser toda maquilhada com pixéis, a fim de evitar ser reconhecido. E foi assim que consegui obter do senhor ”Endra”, também conhecido pelos meios mais intelectuais como “anethum graveolens”, planta aromática, muito utilizada na cozinha sueca, alemã e finlandesa, a sua versão dos factos acerca do polémico visado …opps, acho que estraguei tudo ao revelar a fonte…

- Já ninguém o pode ver…nem pintado. Ele tem a mania que é da alta sociedade e exige ser tratado por senhor Léxico em vez de verbo…Toda a gente se queixa de ter sido ludibriado por este artista bem-falante. São pulseiras magnéticas que curam qualquer maleita, são livros do “viver melhor” que aconselham chás de urtigas para os ataques de caspa, são cartões de créditos e seguros de saúde inúteis, mas que têm uma imensidão de clausulas em letras microscópicas que te agarram como carrapatos para o resto da vida para nunca mais te largar, são produtos para dietas que te fazem passar 80% do tempo a correr para as casas de banho, o que realmente faz emagrecer, tal a aflição para encontrar o mais rápido possivel uma sanita…mas a cereja em cima do bolo foi quando ele apareceu um dia, a propor a todas as pessoas: “queres tornar-te rico com apenas uma pergunta?”. Como parecia um bom negocio, pois apenas pedia 10 euros para desvendar este negocio da china, foi num instante que ele encheu uma sala com umas centenas de pessoas ávidas e gananciosas  por saber como era possível. Foi então que, com muita pompa e circunstância, ele subiu para o púlpito improvisado para o efeito de modo a que fosse visivel  pela  multidão, e da maneira mais cool e descontraída, apenas disse o seguinte:

-obrigado pela generosa contribuição monetária. Agora, só devem encontrar mais um lote de ingénuos e dizer-lhes: “queres tornar-te rico com apenas uma pergunta?”...

E se isto não é fazer jus ao verbo endrominar, então não sei não...

Fernando, pai de Filipe Amorim ( 4 anos)