Farrear ou a vã gloria de fazer (muito)arroz doce.
PLANO A: colocar um aviso em que informo que, devido ao facto de haver a feira medevial em Moreira da Maia e que, cavalgando no nosso garboso carro, iremos a esta nobre cruzada, na heróica luta contra a sangria e o pão com chouriço;
Por se ter iniciado a feira do livro no Porto, e adoramos saltar de banca em banca, ganhando espaço com os cotovelos ( no boxe é proibido mas isto não é desporto...) na busca da grande pechincha que satisfaça cada membro da família sem ultrapassar o budget definido;
Por ser o fim de semana de Serralves, grande sensação cultural e de recreio da cidade, mesmo tendo como eterno handicap as tentativas goradas de estacionar o carro nas ruas circundantes, sem que apareça o raio do arrumador com o jornal enrolado na mão, a comandar as manobras, solicitando amavelmente a moeda, sem nenhuma contra partida, embora saibamos não ser saudável para o nosso querido veículo dizer “não”;
Por querer experimentar a mesa de piquenique desdobrável que adquiri no Jumbo, feita de muito plástico e pouco metal, que geme de aflição mas que aguenta estoicamente o nosso peso, depois de todos acomodados nos seus ridículos bancos...
Ou seja, por ter muito onde farrear, fica o leitor encarregado de fazer o TPC, que é verificar por si mesmo o significado da palavra. Levante o rabo do sofá e aproveite as minhas dicas...ponto final. Texto concluído.
PLANO B: relatar como naquela segunda feira, depois de trazer da nossa bela terra, Paredes de Coura, uma garrafa de litro e meio de leite da vaca, vindo directamente do produtor, me passou pela cabeça que poderia ser um grande “chef” de cozinha como o Henrique Sá Pessoa e decidi que iria fazer um belo de um arroz doce, surpreendendo assim a família com a minha versatilidade na arte da culinária, conquistando admiração pelo paladar.
Infelizmente, não tenho daqueles aventais de cozinha com a estampagem de um corpo bronzeado e musculado, e que faria toda a diferença se cozinhar fosse apenas estilo e não técnica. Também verifiquei no google e não existe á venda o livro “Arroz doce para Totós “, o que me parece uma falha imperdoável. Dois contratempos iniciais que não fizeram esmorecer a minha vontade de brilhar. Lá encontrei finalmente uma receita mal amanhada, numa gaveta da cozinha, escrita com gatafunhos estilo médico de família, mas sem a descrição das quantidades, o que achei não ser grave pois confio totalmente no meu paladar para acertar medidas. Coloquei o leite na panela para ferver, com a casquinha de limão e o pau de canela a flutuar. Ocasionalmente, quando estes se juntavam, dava a ilusão de uma jangada com uma vela quase a afundar. Mais uma tentativa frustada de Robinson Crusoe sair da ilha, fantasiei eu, as tempestades de leite são terríveis para este naufrago.. .
Quando chegou a vez do arroz, uma leve dúvida se levantou. Que quantidade deitar? Depois de abrir o saco, abanei os ombros e despejei o conteúdo todo. É nessa parte que ignorantes como eu consideram assinalável o meu poder decisório. Os entendidos da cozinha, neste momento arrepiam-se e pressentem que algo vai correr mal, tal a quantidade insana de arroz que acabei de deitar.
Logo verifiquei o lapso cometido. Para além de estar sempre a acrescentar mais e mais leite, a panela começou a tornar-se pequena. Tal como as Matrioskas, bonecas tradicionais de madeira russas, compostas por várias figuras que vão da mais pequena á maior, também eu fiz mais ou menos igual, só que com as panelas, mudando diversas vezes, conforme o crescimento do seu conteúdo.
Não sei se conhecem a banda desenhada do “Calvin e Hobbes”, que o jornal Público publicava na última pagina, há uns anos. Era acerca das aventuras de um miúdo rico em imaginação e do seu tigre de peluche. Pois este rapaz, quando era obrigado a comer as refeições que a mãe lhe punha em frente, fantasiava que a comida ganhava vida, transformando-se em monstros, com quem lutava com os talheres. Pois EU posso dizer que me senti um Calvin. Gerei mesmo um monstro. Cada vez maior, implacável, que teimava em transbordar para cima do fogão e que era insaciável, pois consumia quantidades cada vez maiores de leite.
Finalmente, depois de meia hora de combate intenso com a minha colher de pau, de suor e desespero, de preces para que parasse de se agigantar, o monstro lá se acalmou, dentro da terceira panela, repousando já com umas quantas colheres de açúcar. O saldo final da batalha foi: cerca de quatro litros de leite gastos, três enormes travessas de arroz doce quente e enfeitado com canela, que me encheram a mesa, e ainda um fogão imundo e uma bacia cheia de panelas á espera de serem lavadas. Ainda pensei em gastar algum arroz para tapar algumas fissuras das paredes de casa ou nos buracos que deixamos quando se pendura quadros. Também me lembrei de moldar uma réplica do Cristiano Ronaldo, em tamanho real, feito de arroz doce, o que poderia ser o embrião do futuro “museu de bonecos de arroz doce de Fernando Amorim”. Acho que até tinha material suficiente para as namoradas todas dele. E não são poucas...
Enfim, e para conclusão da história: já dizia a minha a minha tia Dulcineia, que para se farrear, é preciso a barriga cheia. Eu nem tenho uma tia com este nome, mas nós, encarregados de educação, tornamo-nos em nome dos filhos peritos nos desenhos animados e lembrei-me do jardineiro da “ilha das Cores”, que tinha sempre um ensinamento vindo de um familiar e que rimava... Para além de dar um ar de sabedoria popular que fica sempre bem.
Ponto final. Texto concluído. A tempo de ir jantar. A ementa de hoje é frango assado com...arroz doce. E escuso de referir qual vai ser a sobremesa pela 15ª vez seguida.... e não esquecer de avisar a família que não convém usar a mesa de piquenique nos próximos seis meses, para segurança dos seus ( futuros obesos..) utilizadores...
PLANO C: incluir o plano A e B. Está decidido, definitivamente, este plano é o melhor.
Fernando, pai de Filipe Amorim, 4 anos
